EM VIAS DE EXTINÇÃO

Três indivíduos encontram-se na esplanada de um Café. Dizem ser amigos. Dizem gostar de partilhar parvoíces. Dizem fazer-lhes bem:  ao partilhar a idiotice alheia, cada um fica ainda mais idiota; ao mesmo tempo, essa partilha permite que cada um sinta, não só a sua idiotice, como a idiotice dos parceiros, e perceba que não está só.

Será que há algum pingo de lógica nisto? A palermice tem lógica?

Sentada na mesa mesmo ao lado, acabei por ouvir partes da conversa. Combinaram fazer uma conversa em que cada um assumia uma personalidade alheia. Não percebi se havia alguma razão para a escolha daquelas personalidades. Também não interessava.

Afinal, a tolice tem justificação?

Identifico-os por números: o palerma 1, era uma senhora. Ouvi estarem a considerar que a palerma 1 seria Anna Muzychuk, ucraniana e Grande Mestre em xadrez. O palerma 2 respondia pelo Vice-Almirante Gouveia e Melo, conhecido por liderar a missão da task force da vacinação em Portugal. O palerma 3, personificava Manuel Alegre, poeta e político português que, após 50 anos viu, muto recentemente, republicado Um Barco para Ítaca, poema onde evoca a Odisseia de Homero e homenageia Ulisses e a sua condição de exilado.

A seguir…Bom, foi mais ou menos assim:

PALERMA 2: «Despedi-me da missão “task force contra a covid-19” a 28 de Setembro de 2021 com mais de 84% da população completamente vacinada. Ainda nem passaram dois meses e oiço algumas vozes que me querem de volta? “Ninguém pode descartar nada enquanto vestir o uniforme militar”. “Se me disserem que é a missão que tenho de cumprir, cumprirei todas as missões”. “Estarei sempre disponível enquanto militar, mas gostaria de ver a nossa sociedade a andar para a frente de outra forma: sem nenhum Sebastião, porque Sebastião é cada um de nós”.»

PALERMA 3: «Será que estás em vias de extinção?»

PALERMA 1: «Não sendo portuguesa, mas pelo que observo, também consigo perceber um orgulho nacional relativamente à forma como agiste e respondeste à missão que te foi atribuída. Arriscava dizer que engrandeceste a personalidade colectiva dos portugueses. Daí até chegar à crença messiânica é um pulinho mesmo… Infelizmente há cada vez menos pessoas a liderar pelo exemplo, a praticar o oposto daquele famoso provérbio: “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”. Sim, pessoas assim estão em vias de extinção…»

PALERMA 2: «Diz o tacho à sertã: tira-te para lá, não me mascarres. Falou a dupla campeã do mundo em xadrez que, aos 27 anos, recusou participar no mundial feminino na Arábia Saudita por não concordar com as exigências de vestuário para as mulheres. Resultado: perdeu os títulos pois não teve, assim, hipótese de os defender no tabuleiro de jogo. Menina de convicções fortes…. Será que estás em vias de extinção?»

PALERMA 3: «Pois é… Do dizer ao fazer vai uma grande distância. Lembro, por exemplo, determinados colegas da Literatura que, quando questionados sobre o que significa receber um prémio literário, respondem “que se trata de uma oferta de amigos, mesmo “que não sejam conhecidos”. Acrescentam até que vêem “a entrega de um prémio como quem oferece um ramo de flores, não como um reconhecimento de mérito. (…) A maior parte das vezes a atribuição de prémio [literário] depende de fatores de circunstância como a composição do júri que tem preferência por variadas formas de escrita".  Opiniões que não deixam de ser curiosas, nomeadamente por pertencerem a pessoas que já foram contemplados - e aceitaram - vários prémios ao longo da sua carreira… Mas também recordo Herberto Helder que, “coerente com toda a sua conduta pessoal e literária, não aceitou o prémio [Pessoa, em 1994, no valor de 7000 contos]; ao ser informado da decisão do júri, comentou: não digam a ninguém e dêem o prémio a outro. (…) Seria vil eu aceitar por causa do dinheiro". O júri decidiu então atribuir o valor correspondente a obras de mecenato.»

PALERMA 1: «Será que estou em vias de extinção?»

PALERMA 3: «” Este é um tempo da desconstrução da democracia. Já não são precisos golpes de estado, nem metralhadoras nem tanques nas ruas. A democracia está-se a desconstruir por dentro, o que é mais perigoso, porque é muito mais difícil de combater. Há hoje um certo abastardamento da cultura, da educação, da civilização. Há uma crise de valores, acha-se que tudo é permitido. As fatídicas redes sociais, com o anonimato, a cobardia, promovem tudo isso. É um tempo de grandes interrogações sem respostas.” Será que por pensar assim também estou em vias de extinção?»

PALERMA 1, PALERMA 2, PALERMA 3, em uníssono e em voz bem alta: «Será que a palermice está em vias de extinção?»

E, sem ligarem patavina às pessoas que estavam, boquiabertas, nas mesas em redor, continuaram a repetir: «Será que a palermice está em vias de extinção?»


*Utilizam-se excertos, identificados por aspas (“), de entrevistas disponíveis publicamente de Anna Muzychuk, de Gouveia e Melo, de Manuel Alegre e de outros.

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