ECOLOGIA POLÍTICA

A faculdade de subtração á sua própria natureza, de resistência aos interesses e às inclinações egoístas, é o critério que mobiliza toda a tradição nascida de Rosseau e de Kant para distinguir animalidade de humanidade, e isso é único no ser humano, a Liberdade.

Soltas agora, no mundo euro-americano, da tutela autoritária da religião, bem como de dogmas político partidários, as pessoas procuram um sentido para a sua existência fora da política e da religião. Muitos jornalistas e intelectuais deploram a ausência das duras clivagens passadas que exigiam luta, força e coação feroz. Não havendo “uma maré baixa mitológica”, segundo E. Morin, o seu substituto é o novo grande desígnio, a ecologia. Dando lhe tinta de Ciência intocável. Um paradoxo. Pois a ciência está sempre associada à incerteza e nunca pretende, nem consegue demonstrar algo definitivamente. Tem como fundamental, rejeitar teorias, antes corretas, quando surgem factos novos que as contrariam (N. Maulide, cientista do ano na Áustria), coisa que ocorre frequentemente.

Segundo K-M. Meyer-Abish, a palavra Natureza foi expurgada de todos os discursos, como se fosse indecente ou imoral, evocar o que ela designa. O termo “Ambiente” impôs-se como mais credível, etimologicamente, “o que nos rodeia”, ou seja o que rodeia os humanos.

A Greenpeace, mãe inspiradora de todas as associações ambientalistas, revela num escrito de Abril de 1979: “ Os sistemas de valores humanistas devem ser substituídos por valores supra humanistas, que colocam toda a vida vegetal e animal na esfera da consideração legal e moral. E a longo prazo, agrade ou não a este e àquele, ter-se-á de recorrer à força para lutar contra os que deterioram o ambiente.” Ou seja, haver uma superação do humanismo, em prol da entronização do reino vegetal e animal de modo coercivo. À força.

Sempre à força. Já o republicano Afonso Costa dizia “A bem do povo, mesmo que o povo não queira.”, ou a clássica frase salazarista “A bem da Nação”. Também as primeiras leis europeias de inequívoca proteção dos animais e do “ambiente”, tiveram a força de Adolf Hitler “No novo Reich não haverá mais lugar para a crueldade com os animais.” Discurso direto inspirador da lei alemã de 24 de novembro de 1933. Completada em 3 de julho de 1934 pela lei limitadora da caça, depois culminada pelo monumento à ecologia profunda que é a lei sobre a Proteção da Natureza (Reichsnaturschutzgesetzs) em 26 de Junho de 1935. (A Nova Ordem Ecologica. Luc Ferry, Edições ASA 1993). É histórica a recusa dos oficiais nazis que ajudavam Franco durante e logo após a Guerra Civil de Espanha, em presenciarem corridas de toiros, enquanto no lado republicano se organizavam corridas e novilhadas cuja receita revertia para o Partido Comunista Espanhol, como se lê nos cartazes que as anunciavam.

O ideal da ecologia profunda é o Mundo onde as épocas perdidas e os horizontes perdidos terão precedência sobre o presente. Detrás deste ideal, coerente, mas impossível de se classificar, onde se mistura o castanho nazi-fascista, com o vermelho comunista, o amor á terra, a pureza perdida, o ódio ao cosmopolita, o desenraizamento moderno do universalismo e dos direitos do homem por um lado; mas por outro o autogestionário mito crescimento zero (ou sustentável), a luta contra o capitalismo. Como torna a mostrar o filósofo Luc Ferry na obra citada, o ecologista profundo é guiado pelo ódio á modernidade, pela hostilidade ao tempo presente (os acarinhados novos rurais...).Ela, a ecologia politica, hesita entre os motivos românticos de um regresso ao passado mais “natural” e por isso conservador e a revolução anticapitalista. O que une este hesitar é a obsessão única de acabar com o Humanismo, de modo neurótico mergulhando as suas raízes no nazismo e estendendo os ramos até aos extremos do “esquerdismo cultural” de Gramsci. É mitomania, o passado sonhado e inventado é menos possível de concretizar que o presente e o futuro. A Natureza não tem na sua natureza voltar para trás, por muito que queiram os híper conservadores ou os atuais híper progressistas.

Divirto-me a observar como muitos dos que se diziam humanistas agora perfilham, devotadamente, estas teorias anti humanistas. A graça de ver como mudam, assistindo `a sua quase imediata diferença de sentir. De pensar, implicaria mais considerações… Se fosse pessoa ruim, imaginaria que não pensam. Achando eu que não sou, muito provavelmente mau, ou mesmo sendo, eles pensam. E ainda bem. Sustentam, indelevelmente, o meu acreditar no humanismo, são LIVRES de pensar, por isso Humanos, queiram ou não.

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