Do Alentejo a Nova Yorque

Ao ver as noticiais do “empresário” do norte que registou a marca do Capote Alentejano, e que na sequência do processo enviou por interposta pessoa – no caso um advogado – uma carta aos artesãos do Alentejo a reclamar que “para pararem as vendas ou pagarem licença” , recordei-me de imediato do caso real de um tio, que emigrado nos USA, mais concretamente em Nova Yorque, era forçado a pagar todos os meses uma quantia ao gang de mafiosos que controlava a recolha do lixo, e que na altura detinha o monopólio desse serviço naquela e noutras cidades norte americanas. Não me recordo do montante, mas lembro-me do tio Fernando contar, com ar irónico, que os capos que o “visitaram” na loja da fruta, lhe levaram uma tabela. Sim porque a coisa era organizada, sendo proporcional ao lixo pressupostamente produzido por cada estabelecimento comercial.

Não querendo estabelecer paralelos entre o que todos os dias ainda continua a suceder no outro lado do Atlântico, e o já famigerado “caso do capote”, (não sei porquê, mas a expressão leva-me logo para Al Capone – coincidências fonéticas, certamente), não deixará de ser curioso o facto do homem pretender que os artífices alentejanos pagassem uma determinada quantia.

No tocante ao valor cultural desta peça de vestuário, já quase tudo foi dito, e isso, em grande parte, parece ser o argumento principal com que, em boa hora, a Câmara de Évora e a Direção Regional de Cultura, sustentam as ações judiciais que de imediato interpuseram, no sentido de tornar nula a decisão do organismo estatal que legitimou esta situação, no mínimo obscena. Não posso, no entanto, deixar de partilhar convosco o que penso do dito “empresário”. Sendo meigo com as palavras, considero-o um oportunista sem escrúpulos. Mas isso sou eu, pois também já ouvi gente a defender a situação. Um conhecido liberal dizia num canal televisivo, que afinal o homem “apenas se limitou a aproveitar uma brecha do mercado”. Um empreendedor, portanto.

E depois temos o Estado a dar cobertura legal a tudo isto. Nem me recordo da designação do organismo público que o fez. Pouco importa o nome. Fico apenas a pensar na qualidade dos quadros superiores, e nalguns casos dirigentes, que hoje pululam na esfera da Administração Pública centralizada na capital. Estes últimos são, em muitos casos, oriundos de dois grandes viveiros: as juventudes partidárias do centrão ou então de alguma conhecida universidade. Nomeadamente das suas business. É gente sem chama, sem alma. A sua dimensão geográfico-cultural raramente ultrapassa o limite e ambiente noturno das Docas. 

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