CARTA A UM AMIGO

Caro A.

Malgrado os problemas crónicos, de saúde, que infelizmente te conheço, espero encontrar-te tão bem quanto possível, física e mentalmente.

Aproxima-se o final do ano, o Natal, sinónimo de (re)nascimento, e queria desejar-te tudo o que te possa fazer feliz.

Vivemos uma época marcada por muitas e importantes descobertas científicas. Mas se os tempos, antes da pandemia, paradoxalmente, já eram estranhos, com ela tornaram-se bizarros. Dir-me-ias que isso tudo é a vida. Não me parece: que culpa tem a vida? Só se a vida tiver demasiadas pessoas que se contentam em ver apenas o que somos, e não o que podemos ser. Pessoas que se recusam a pensar. Não por estupidez, mas por medo. Medo dos seus próprios pensamentos, de eles as levarem a sair da sua zona de conforto e, assim, de ficarem numa situação pior do que aquela em que estão. Depois, o individualismo e o egocentrismo niilista alimentam-se de tudo isto. Roubam-nos um chão comum, a preocupação e a responsabilidade com o outro, na singularidade da existência de cada um. Apesar de, nesta “individualizada sociedade de consumidores” (a expressão é de Zygmunt Bauman) proliferarem discursos (vagos) de solidariedade…

Hoje, passados dois anos sobre o início da pandemia, e apesar de serem muitos os cidadãos portugueses que estão vacinados, voltámos a viver em situação de calamidade e a serem reintroduzidas várias restrições e novos apelos para tentar conter o crescimento dos casos de infecção. Dir-me-ias, à semelhança de muitos, que são efeitos da nova variante, a Ómicron. Decerto, ela terá a sua quota parte de culpa. Mas não será que a responsabilidade individual e a responsabilidade colectiva, no cumprimento das regras básicas de contenção – uso de máscara e desinfeccção das mãos e, sempre que possível, distância física – versus o singelo, desejado “temos de viver, de preferência, como antes o fazíamos”, deverão ser também equacionadas? E já agora, reflectidas, por cada um (Independentemente das regras externas que me são impostas, faço o suficiente para me proteger e para proteger os que estão perto de mim?).

Sei bem que não se chega ao fim de coisa nenhuma sem sentir dor. Mas será assim um tão grande devaneio sonhar com um mundo onde pudesse a alegria, em seu voo, (qual albatroz com as suas asas longas e estreitas esticadas para fora) inventar seres humanos, amantes da palavra e do silêncio, conscientes de que apenas o Amor (n)os pode salvar? Seria perfeito, julgo. Assim mesmo, restaria saber se estes seres humanos saberiam o que fazer com o verbo amar. E, se não tivessem uma resposta imediata, se saberiam o que fazer, no entretanto.

Querido A, estava a escrever-te estas palavras e vinham-me à cabeça imagens da maior catarata do mundo chamada, em idioma Pemon, Kerepakupai-Meru ou “queda de água até ao lugar mais profundo”.  De facto, a vida não é uma linha recta. Quantas vezes nos perdemos. Quando saímos do caminho, se mergulhamos ou voamos, arriscamos desaparecer, como pó. Tal como a água que cai, ininterrupta, ao longo de 979 metros, desta maravilha da natureza: grande parte chega ao solo, vaporizada.

Desejo que nos possamos voltar a abraçar em breve.

Saudades.

Ana Paula

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