Coerente com o papado que tem vindo a exercer, o Papa Francisco convocou para outubro de 2023 o Sínodo dos Bispos, subordinado à temática da Sinodalidade (Comunhão, Participação, Missão) introduzindo-lhe uma dimensão inovadora: a Descentralização do processo sinodal.

Com esta dinâmica, o Papa pretendia envolver todos na Igreja, pessoas e estruturas, a começar pelas “bases”.

Na diocese de Beja, a Comissão Sinodal, coordenada pelo Padre Manuel António do Rosário (Delegado Diocesano), contando ainda com a participação De Natália Costa, Maria do Sameiro Pedro, Clara Palma e António Quadros e Costa, tornou agora pública a síntese resultante das audições realizadas.

O documento reflete a opinião de pessoas e grupos de “dentro e fora da igreja”.

Foram recebidos contributos de 21 Paróquias (que em certos casos são grupos de paróquias), de alguns Movimentos, de Congregações religiosas e também contributos individuais, representativos dos 6 Arciprestados que compõem a Diocese de Beja, embora seja de assinalar a ausência, bastante significativa, de muitas das 118 Paróquias, algumas das quais Sedes de Concelho.

Os contributos mais expressivos, em número e profundidade, vieram dos 3 Concelhos do Litoral Alentejano: Sines, Santiago do Cacém e Grândola. De salientar também os contributos oriundos da Cidade de Beja, quer dos grupos de raiz paroquial, quer de alguns Serviços e Movimentos Eclesiais, que têm na Cidade o seu centro nevrálgico.

A Comissão reconhece que, “apesar do entusiasmo e envolvimento com que a Comissão Sinodal entrou neste projeto, pode concluir-se com algum realismo e tristeza, a partir dos contributos recebidos que: a Igreja de Beja continua muito centrada na figura do Padre, e na Hierarquia, e o interesse e/ou envolvimento do pastor faz toda a diferença”, sendo que na opinião de alguns Padres e Leigos mais comprometidos, continua “excessivamente clericalista, centralista, formal e ritualista”.

Nos Leigos, acrescentam, em geral a falta de formação e compromisso no “Mundo”, onde vastos setores estão completamente à margem da vida da Igreja: Cultura, Música, Comunicação Social, Política, Associativismo, Desporto, Mundo do Trabalho, Educação, Saúde, etc..

É também referido que a Igreja quase não é motivo de notícia na Comunicação Social e, quando o é, nem sempre acontece pelos melhores motivos. A Igreja, afirma-se várias vezes, ou não comunica ou comunica mal. A este propósito é apontado o exemplo da Página da Diocese na Internet, desatualizada há muito tempo, quando deveria ser uma referência da vida diocesana.

Alguns contributos referem também que não há comunhão, antes desunião, inviabilizando um caminho sinodal.

Chega a ser referido que se vive a fé como grupos fechados, quase seitas (que às vezes se antagonizam, nas palavras, nas atitudes, e na indiferença ou nos confrontos que deixam transparecer para fora), apresentando-se mais frequentemente como rivais do que como irmãos.

Esta imagem de divisão e falta de comunhão, foi assinalada por muitos, como sendo visível quer no seio do Clero, quer nos Leigos. São mesmo referidas por membros do Clero a inexistência de um verdadeiro Presbitério e a falta de comunhão entre o Clero e o seu Bispo.

Alguns testemunhos consideram que esta situação tem vindo a degradar-se, sublinhando que “se está a viver uma das piores fases na vida do Clero Diocesano, onde pululam grupos de pressão e controlo do “poder”, onde nada se faz (que seja visível) para inverter esta situação, considerada verdadeiramente preocupante e escandalosa” embora surjam algumas notas positivas nos encontros do Clero mais jovem com o Bispo, como um sinal de esperança”.

Vários contributos referem a notória descoordenação e quase “paragem cerebral” da generalidade dos Serviços Diocesanos, e a ausência de uma verdadeira Coordenação da Pastoral Diocesana.

É ainda constatado que nestes últimos tempos a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 apareceu como o grande elemento catalisador e dinamizador dos mais novos e, por arrastamento, dos adultos, dos adolescentes e das crianças, criando alguma novidade e empenho, também no seio das Comunidades Cristãs.

É uma opinião generalizada que, na Diocese e na Igreja em geral, que, “apesar do esforço de abertura que o Papa Francisco introduziu e protagoniza, prevalece uma Igreja centrada na Hierarquia, Bispos e Padres” recorrendo-se a uma linguagem “eclesiástica” rebuscada, com decisões tomadas “hierarquicamente”, quando não “monarquicamente”, aparecendo as referências ao Espírito Santo quase como um refrão gasto e pouco convincente.

Alguns contributos fizeram chamadas de atenção quanto à necessidade de se criarem condições que permitam ultrapassar as barreiras arquitetónicas no acesso aos espaços litúrgicos, sendo urgente também trabalhar pelo maior embelezamento das Igrejas.

Alguns contributos insistiram na importância de se dar mais espaço às Mulheres na estrutura da Igreja Universal, Diocesana e Paroquial e repensar a ligação entre Sacerdócio e Celibato.

A figura e o desempenho do Papa Francisco não passaram ao lado da reflexão sendo apontado como “o “tipo” de cristão que a Humanidade de hoje aprecia e espera ver nos cristãos”, sendo considerado como uma verdadeira fonte de inspiração, também para os que estão “fora”, sendo, infelizmente, muitas vezes objeto de crítica por uma parte daqueles que estão “dentro”. 

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Identifico-me com o texto apresentado embora esta paróquia, nos ultimos 15 anos, nunca tenha sido auscultada em qualquer situação. Considero a situação ainda mais gravosa nas pequenas paróquias, onde nem contacto há com o pároco a não ser na missa dominical, porque as outras já acabaram !... Quando sentimos necessidade de fazer qualquer coisa para que a igreja não morra ou feche as portas de vez, dentro de muito poucos anos, não há abertura para quaisquer acções . As pessoas têm-se afastado... Só há idosos na eucaristia de domingo, a catequese está reduzida a meia duzia de crianças, os jovens não aparecem, alguns fazem a catequese de adultos, porque querem apadrinhar, mas depois abandonam... ficam rarissimas excepções. Batizados são poucos, crismas tb, casamentos são raros, restam os funerais.... Preocupo-me com o futuro da nossa comunidade paroquial e culpo em muito o nosso bispo por ter colocado aqui um padre com outra actividade e portanto pouca disponibilidade. Quando tentou colocar aqui outra pessoa, houve uma recusa à conta de uma doença que tanto se tratava onde está como estando aqui, à conta da pressão que a sua comunidade fez para não o deixar sair e porque tb não gostou de sair para vir tentar reanimar uma paróquia sem vida... O bispo não foi capaz de se impor e agora??? .... Os movimentos da igreja acabaram todos!...... Onde chegaremos assim? Será possível reverter esta situação? Alguma vez mais iremos ter música ou coro na igreja? Estou certa que vai acontecer o que aconteceu na Russia. As pessoas foram-se desabituando de ir a igreja, de rezar , de receber os sacramentos e a maior parte fechou portas e foram transformadas em armazém !!!.... É isso que queremos? Se nada for feito será certamente isso que vai acontecer e não demora.

Teresa Rogado Coelho

21/06/2022

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