A decorrer até sábado, no Vila Galé Alentejo Vineyards, a academia junta técnicos municipais, eleitos locais e especialistas em torno de um programa formativo centrado em áreas como marketing territorial, inteligência artificial, análise de dados, atendimento em postos de turismo e comunicação estratégica de eventos municipais.

Na sessão de abertura, o presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, José Santos, sublinhou o papel decisivo da administração local no desenvolvimento turístico, defendendo que os municípios são uma das “brigadas” essenciais do “exército” que sustenta o setor no território.

“O turismo também ajuda muito a induzir dinâmicas de qualificação do espaço público, de apoio ao empreendedorismo e à inovação”, afirmou, considerando que, mesmo nos concelhos onde esta atividade não é a prioridade central, existe hoje uma consciência crescente da sua capacidade agregadora e multiplicadora sobre outras áreas da economia.

José Santos destacou a forte adesão à iniciativa, com 104 participantes, considerando que a academia procura também “melhorar o entrosamento” entre agentes e “elevar a consciência de destino”, num momento em que a região procura consolidar resultados e reforçar posicionamento.

No plano dos indicadores, o responsável traçou um balanço positivo de 2025, referindo que o Alentejo e Ribatejo foram a região turística do continente que mais cresceu no mercado nacional, com uma subida de 6,7% nas dormidas de portugueses, e registaram ainda um crescimento de 3,7% nas dormidas de estrangeiros. José Santos assinalou igualmente o alcance da meta das duas noites de estadia média e a subida da taxa de ocupação quarto para 59%.

Ainda assim, advertiu que os resultados médios escondem assimetrias internas e defendem uma leitura mais fina do território, de modo a ajustar estratégias e reforçar destinos onde o desempenho tem sido mais frágil.

Para 2026, o presidente da ERT apontou como prioridades o reforço da atração de grandes eventos, o aumento do investimento promocional, sobretudo em Espanha, o aprofundamento da promoção internacional, a estruturação de novos produtos turísticos e a aposta na formação.

Entre os exemplos apresentados, destacou a realização este ano de eventos com maior capacidade de projeção externa, como o Campeonato do Mundo de Enduro no litoral alentejano, a Gala dos Sóis da Repsol em Évora, a programação associada à Cidade Europeia do Vinho e a segunda edição da Taça do Mundo de Gravel em Ourique.

Na promoção externa, José Santos sublinhou o foco atribuído ao mercado espanhol, classificando-o como prioritário. Referiu, a este propósito, a campanha atualmente em curso na Extremadura e Andaluzia, bem como o reforço da presença da região em meios de comunicação e plataformas especializadas daquele mercado.

Ao mesmo tempo, assinalou o reforço da estrutura técnica dedicada à promoção internacional, com o aumento do número de gestores de produto e de mercado e a contratação de novas assessorias para mercados como Alemanha, França e Reino Unido, mantendo-se também o trabalho em Espanha e no Brasil.

No domínio da inovação, o dirigente anunciou ainda a criação de um assistente virtual com inteligência artificial para a plataforma Visit Alentejo, destinado a melhorar a personalização da informação prestada aos utilizadores e a capacidade de resposta digital do destino.

Outra das áreas destacadas foi a estruturação de produto, com projetos ligados ao turismo literário, às estações náuticas, à arte contemporânea e à criação de uma rede de hotéis literários no Alentejo e Ribatejo, numa iniciativa que classificou como pioneira no contexto nacional.

A formação mereceu igualmente especial relevo na intervenção do presidente da ERT, que reconheceu não se tratar de uma competência central das entidades regionais de turismo, mas defendeu que se tornou impossível ignorar a sua importância estratégica. Nesse contexto, apontou como objetivo alargar a oferta de formação contínua no território, nomeadamente através de um polo associado à Escola de Hotelaria e Turismo de Portalegre, a instalar em Alvito, e de novas ações dirigidas a profissionais ligados ao aeroporto de Beja, incluindo acolhimento, hospitalidade e idiomas.

Também presente na sessão de abertura, Catarina Paiva, vogal do Conselho Diretivo do Turismo de Portugal, enquadrou os desafios atuais do setor numa lógica mais ampla, defendendo que os bons resultados alcançados nos últimos anos não garantem, por si, o sucesso futuro.

A responsável lembrou que o turismo representa mais de 12% do Produto Interno Bruto, 20% das exportações e emprega diretamente mais de 450 mil pessoas em Portugal, mas salientou que a relevância do setor vai muito além dos números, pelo impacto que tem na coesão territorial, na identidade cultural e na dinamização de múltiplas áreas de atividade.

“O turismo é um setor com uma capilaridade que poucos têm”, afirmou, explicando que o seu crescimento se repercute diretamente no comércio, nos transportes, na cultura e noutros domínios da economia.

Catarina Paiva alertou, contudo, para o contexto de mudança acelerada que marca o presente, apontando fatores como alterações climáticas, transformações tecnológicas, migrações, tensões geopolíticas, envelhecimento demográfico e novas exigências sociais como elementos que obrigam o setor a reinventar-se permanentemente.

Nesse quadro, defendeu que a tecnologia deve ser encarada como meio e não como fim, valorizando a sua utilidade para melhorar a experiência do visitante, apoiar a gestão inteligente dos territórios e reforçar a capacidade de decisão com base em dados. Mas advertiu que a transformação digital só produz resultados quando articula três dimensões: tecnologia, pessoas e processos.

“Não basta adquirir tecnologia”, sustentou, defendendo a necessidade de capacitar recursos humanos, redefinir processos e alinhar o uso das ferramentas com a visão estratégica de cada organização e de cada destino.

A dirigente do Turismo de Portugal sublinhou ainda que o futuro do setor passará cada vez mais pela capacidade de criar valor nas comunidades locais e de medir o sucesso não apenas por dormidas, receitas ou taxas de ocupação, mas também pelo impacto positivo gerado nos residentes, nos territórios e na preservação da identidade cultural.

Entre os grandes eixos estratégicos apontados para o futuro, destacou a sustentabilidade, a valorização das profissões do turismo, o reforço do talento e da formação contínua, a produção de informação relevante para apoio à decisão e a necessidade de construir marcas territoriais com valor real e valor percebido.

A academia prossegue até sábado com sessões de trabalho e visitas técnicas nas áreas do enoturismo, turismo equestre e alojamento, numa iniciativa que a organização apresenta como instrumento de capacitação dos técnicos municipais e de reforço da competitividade do destino Alentejo e Ribatejo.

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