2021: Surtos de covid-19 em Odemira 'destaparam' abusos laborais de migrantes
O elevado número de casos de covid-19 entre trabalhadores agrícolas em Odemira, sobretudo estrangeiros, fizeram este ano o país centrar atenções nos abusos laborais e nas más condições de habitabilidade destes migrantes.
O elevado índice da doença provocada pelo novo coronavírus neste concelho alentejano levou mesmo o Governo a decretar uma cerca sanitária em duas freguesias – São Teotónio e Longueira/Almograve, em 29 de abril, para tentar travar os contágios.
Na altura, o primeiro-ministro, António Costa, alertou para as “situações de insalubridade habitacional inadmissível, com hipersobrelotação das habitações” no território, que considerou tratar-se de “uma violação gritante dos direitos humanos”.
Em vigor no pico da campanha agrícola, a cerca sanitária implicou a transferência de centenas de trabalhadores para o complexo turístico Zmar, Pousada da Juventude de Almograve e Residência de Estudantes em Odemira, devido a sobrelotação e falta de salubridade das habitações, assim como posteriores realojamentos.
A decisão implicou a requisição civil do empreendimento turístico para alojar pessoas em confinamento obrigatório ou permitir o seu “isolamento profilático”, tendo os moradores apresentado uma providência cautelar que foi aceite pelo tribunal.
No entanto, o Governo avançou mesmo com a transferência de trabalhadores migrantes para o Zmar, apesar da contestação dos moradores, tendo chegado depois a acordo com a Massa Insolvente da Multiparques a Céu Aberto - Campismo e Caravanismo em Parques, S.A, dona do Zmar, para a cedência temporária de 34 alojamentos.
No início deste mês, permaneciam sete trabalhadores agrícolas na Pousada da Juventude de Almograve, de acordo com dados fornecidos à agência Lusa pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC).
A cerca sanitária terminou em 12 de maio, um dia depois do anúncio feito pelo primeiro-ministro, numa cerimónia na vila de Odemira, onde assinou dois memorandos com o município e as empresas agrícolas para dar resposta aos problemas identificados.
Os trabalhadores temporários, a maioria de países como o Nepal, Índia e Paquistão, procuram naquele local, “onde abundam as estufas de pequenos frutos”, o seu meio de subsistência, sendo esta a atividade “que mais imigrantes emprega”, segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).
Em maio, o então presidente da Câmara de Odemira, José Alberto Guerreiro, estimava que, “no mínimo, seis mil” dos 13 mil trabalhadores agrícolas do concelho, permanentes e temporários, não tinham “condições de habitabilidade”.
O então autarca revelou, na altura, já ter apresentado uma denúncia na Polícia Judiciária sobre situações que considerou suspeitas e que estariam na base da existência “de muitos trabalhadores migrantes” no concelho.
Em outubro, o SEF revelou estarem a decorrer, relacionados com Odemira, oito inquéritos por suspeitas de auxílio à imigração ilegal, tráfico de pessoas para exploração laboral e falsificação de documentos e que “um total de oito entidades patronais e oito cidadãos” estavam a ser investigados “na qualidade de suspeitos”.
As autoridades de saúde pública realizaram 73 ações de fiscalização a alojamentos de trabalhadores naquele concelho, desde o decretar da cerca, tendo elaborado 14 autos por falta de condições de habitabilidade, falta de salubridade ou sobrelotação.
No mesmo período, a Autoridade Tributária tinha identificado “11 senhorios e subarrendatários”, resultando na instrução de 11 processos, dos quais oito estavam concluídos e três em curso.
Estes processos permitiram identificar “113 irregularidades não especificadas, sendo que 74 foram voluntariamente regularizadas e 39 [estavam] por regularizar”.
A Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) tinha levantado 1.220 autos de notícia, em resultado de inspeções realizadas a mais de 200 empresas, entre agricultores, prestadores de serviços e outras de trabalho temporário.
De acordo com a Câmara de Odemira, a entrega de pedidos para legalização e autorização de contentores nas explorações agrícolas de Odemira está a decorrer, desde setembro, com vista a melhorar as condições de habitação dos trabalhadores sazonais na campanha do próximo ano.
Comente esta notícia
Destaques
PJ investiga incêndio que deixou homem desalojado em Ferreira do Alentejo
PJ detém em Beja suspeito de posse de arma proibida e burla em negócio fictício
CCDRAlentejo: Eleitos da CDU recusam participar na votação perante “negócio” feito entre PS e PSD

