Uma Vida que não foi Vida
Quando adquiriu a liberdade com o casamento dos irmãos e a morte do pai, já a vida tinha passado por si.
Acordou com o sol a entrar-lhe no quarto do lar, pequeno, asséptico e despido de conforto. Levantou-se a custo, que as dores eram muitas. Em passo lento, com as mãos a tremer, amparada à parede, aproximou-se da janela. Subiu totalmente os estores, sentou-se com dificuldade na cadeira de braços e olhou a rua por entre as vidraças. Um rapaz e uma rapariga abraçados que passavam na rua chamaram-lhe a atenção. Fixou neles o seu olhar e, enquanto o casal desaparecia do seu ângulo de visão, ela viajou no tempo, recuando até à sua infância.
Era a mais velha de três irmãos nascidos numa família de pequenos seareiros do Alentejo. Ainda frequentava a escola primária, que foi obrigada a deixar após a conclusão da terceira classe, já a mãe a tinha iniciado nas artes de cuidar da casa: lavar louça, fazer camas, acarretar lenha para a chaminé e fazer um líquido vermelho, resultante da mistura de água com argila avermelhada, o almagre, que periodicamente aplicava na terra batida que constituía a parte maior do chão da moradia onde viviam. Aos 11 anos aprendeu a mondar e aos treze ceifava ao lado da mãe na pequena seara de trigo que o pai fazia anualmente numa courela do lavrador mais abastado da freguesia, que, só por ser o dono da terra, ficava com um terço da produção.
A maior parte do tempo era, no entanto, ocupado no cuidado e guarda dos dois irmãos mais novos, respetivamente três e quatro anos. E esta foi a sua especialização: cuidar dos homens da família.
Os gritos de dor e os vómitos secos da companheira de quarto trouxeram-na ao presente, no que só foi um instante, mergulhando logo de seguida no seu mundo de recordações, atividade com que preenchia o presente feito de ausência de futuro.
A doença da mãe, rápida, fulminante, que lhe tirou a vida em menos de um ano, fez dela, aos quinze anos, a “dona da casa”, expressão onde “dona” significa ser escrava de um espaço físico, a casa, onde o trabalho de cuidar de quem nela habita nunca tem fim.
O cuidar dos pais e dos dois irmãos enclausuraram-na. O afastamento dos ranchos de mulheres que, periodicamente, eram contratadas pelos feitores dos grandes proprietários agrícolas para a monda, ceifa e apanha da azeitona; e a ausência dos espaços de diversão que uma aldeia do Alentejo, em finais dos anos cinquenta do século passado, possibilitavam a uma jovem filha de assalariados rurais ou de pequenos seareiros, não lhe permitiram conhecer os rapazes da sua idade e, por conseguinte, ter namorado. E se algum rapaz se aproximava de si, logo os irmãos o tratavam de afastar sob ameaças várias, não fosse o namoro tornar-se sério, terminando em casamento, com isso perdendo-se a “dona da casa”.
Quando adquiriu a liberdade com o casamento dos irmãos e a morte do pai, já a vida tinha passado por si. Até a raiva, que durante tantos anos lhe tinha servido de alimento, se tinha esvaído. Uma tristeza profunda tomou-lhe, então, conta dos dias. E assim se encostou à árvore do tempo, observando, vazia por dentro, o fluir das estações, à espera do fim.
Um grito de dor mais intenso da sua companheira de quarto trouxe-a, de novo, ao presente. Fechou os olhos e com o som dos gritos cada vez mais distante mergulhou na noite dos tempos.