Uma Vida Como Habitualmente
Na escola, onde desde há 30 anos que dá aulas da mesma maneira, como se o mundo e a ciência tivessem parado no tempo, nunca ninguém o ouviu emitir uma opinião sobre o que quer que fosse nem o viu participar em qualquer festa ou iniciativa cultural.
Ele era um miúdo curioso e bastante habilidoso. Cada brinquedo que lhe ofereciam era um desafio de descoberta. O que lhe interessava nos brinquedos não era exercitar a função para que foram criados, mas sim saber como funcionavam, daí o prazer em desarticulá-los em pequenas peças para desespero dos familiares mais próximos.
Com este espírito cresceu, estudou e, estranhamente, licenciou-se em biologia quando tudo indicava que o seu futuro era ser engenheiro. Durante a Faculdade contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que foi ao cinema, ao teatro, a um concerto ou a uma exposição. Quanto a leituras só “A Bola” e uma revista sobre caça e pesca o ocupavam. O seu quotidiano de estudante era passado entre as aulas e as conversas e copos com os amigos. Durante os quatro anos da licenciatura nunca falhou umas férias nem um fim-de-semana na casa dos pais. Aqui, ocupavam-lhe os dias a caça, a pesca e a oficina, misto de carpintaria e serralharia, que tinha montado numa casa no quintal da sua residência.
Terminado o curso regressou ao local de onde tinha partido e iniciou a profissão de professor de biologia na Escola do Ensino Secundário da sua localidade, casando com uma vizinha da sua rua, funcionária da Caixa Geral de Depósitos. Agora, com emprego estabilizado, passou a viver como sempre tinha vivido, ou seja, como habitualmente.
Na escola, onde desde há 30 anos que dá aulas da mesma maneira, como se o mundo e a ciência tivessem parado no tempo, nunca ninguém o ouviu emitir uma opinião sobre o que quer que fosse nem o viu participar em qualquer festa ou iniciativa cultural. É, no entanto, conhecido pelo seu gosto por futebol, caça e pesca, matéria que discute com gosto e prazer durante os intervalos das aulas com os funcionários, e por ser uma espécie de serralheiro / carpinteiro do estabelecimento de ensino, uma vez que é ele que desempenha com brio a tarefa de arranjar portas, substituir fechaduras, colocar vidros e arranjar torneiras e autoclismos.
Fora da escola o seu tempo reparte-se entre a televisão, onde com a mulher segue diariamente duas telenovelas, uma na SIC e outra na TVI, a oficina que tinha montado na casa dos pais, a caça e a pesca aos fins-de-semana e a frequência da casa do Benfica para ver e discutir futebol e beber uns copos com os amigos.
Desinteressado e ignorante das coisas da cultura – nunca ninguém o viu em qualquer evento cultural – sabe que José Saramago foi prémio nobel, mas nunca leu um livro deste autor. Leituras, para além das sebentas da Faculdade, do jornal “A Bola” e de uma revista ou outra sobre caça e pesca, só mesmo os resumos dos livros obrigatórios do ensino secundário. Ouviu falar em Picasso, mas não consegue identificar um quadro deste artista, nem mesmo “Guernica”. Ouviu falar em José Afonso, mas a única coisa que sabe sobre ele é que foi o autor da “Grândola Vila Morena”. De política também pouco sabe, de que fugia com a expressão lapidar: “Disso não sei nem quero saber, a minha política é o trabalho”.
Hoje, a dois anos da reforma, vive mergulhado numa escola e num mundo que desconhece, totalmente desprovido dos instrumentos mínimos para a sua compreensão. Impotente clama por autoridade. Nas últimas eleições legislativas saiu da abstenção crónica para votar no partido “Chega” e na sua oficina, onde cada vez passa mais tempo, já tem, em grande, uma fotografia emoldurada de André Ventura.