Há vidas assim...

Um Homem Bem-Sucedido na Vida

Num impulso, ditado pelo medo, mergulhou na piscina e enquanto se ia afogando, por não saber nadar, ainda conseguiu ver a namorada, qual fénix renascida, abraçada ao seu filho mais velho, o segundo da lista do seu partido nas próximas eleições de deputados.

Naquele entardecer de agosto, Francisco Silva, sessenta e oito anos, sentado junto à piscina do turismo rural que tinha alugado por uma semana, sítio recatado para esconder do mundo a sua namorada, mais nova 26 anos, e mulher de um dos funcionários da empresa de serviços que tinha criado, fazia o balanço da sua vida enquanto bebericava um copo de vinho branco gelado e fumava o último charuto de uma caixa oferecida pelo seu amigo António aquando da visita deste a Cuba.

Lembrava-se da sua chegada a Lisboa, ainda muito jovem, vindo de Angola com a família no rescaldo da descolonização, do ódio do pai aos comunistas, que passou para os filhos, e das ligações do progenitor ao ELP (Exército de Libertação de Portugal) e MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal), organizações terroristas de extrema direita que puseram a ferro e fogo tudo o que era de esquerda no decurso do processo revolucionário decorrente do 25 de abril de 1974.

Vivendo neste meio reacionário, que lhe moldou a visão do mundo, Francisco Silva sempre tinha sido uma pessoa pragmática, o que lhe interessava era dar-se bem na vida. Terminado os estudos liceais empregou-se numa companhia de seguros, residindo numa vila do Alentejo dominada politicamente pelos comunistas. Homem expansivo e brincalhão por feitio, rapidamente granjeou amigos integrando a direção de várias associações locais, bombeiros, misericórdia, caçadores. etc. Tudo homens, a maior parte votantes no PCP, mas, em muitos aspetos, com uma visão conservadora do mundo.

Francisco Silva lembrava-se bem do dia em que tinha pensado que naquela terra só podia singrar a sério se fosse do PCP. Assim, em conformidade, alistou-se no partido e cinco anos depois estava a ser eleito Presidente da Câmara, cargo que exerceu durante dois mandatos consecutivos, altura em que o seu instinto político lhe mostrou que uma nova vaga vinha aí, a do Partido Socialista.  

Puxando mais uma fumaça do seu charuto e com um sorriso a iluminar-lhe o rosto, recordava, com algum orgulho, como tinha enganado os comunistas. E o sorriso alargava-se ainda mais com a lembrança de ter votado em todas as eleições nacionais no PSD e nos candidatos presidenciais da direita, embora recebendo no município, com pompa e circunstância, os candidatos do seu partido. Aproveitou o cargo, fez “negócios por baixo da mesa” e amanhou-se na vida. Como ele gostava de dizer: “em terra de cegos quem tem um olho é rei”.

A hegemonia política do PS fez com que se virasse para este partido, após um período de nojo, altura em que aproveitou para formar uma empresa de prestação se serviços que foi prosperando graças aos contactos que estabeleceu enquanto Presidente de Câmara e por este partido voltou a ser eleito chefe de edilidade. A sua expetativa era ser deputado para depois integrar o Governo, como secretário de Estado ou assessor de algum governante. Quando percebeu que isso não aconteceria, ainda tentou o PSD, o seu partido de sempre como eleitor, embora o seu coração estivesse mais à direita. Aqui rapidamente percebeu que também não tinha futuro, embora tivesse sido uma passagem muito proveitosa pelos negócios que realizou.

André Ventura e o “Chega” foi o sobressalto que precisava. A sua intuição tinha-lhe dito que era ali que podia ser um político nacional com as portas abertas para os negócios que faziam, de facto, um homem verdadeiramente rico. E uma gargalhada soltou-se-lhe perante a recordação da decisão tomada no final de julho na reunião distrital do partido. Seria o cabeça de lista nas próximas eleições para a Assembleia da República.

Estava Francisco Silva neste deleite recordatório quando ouviu os gritos da sua namorada, correndo para si com o terror estampado no rosto. Ao som do que pareciam ser dois tiros ela caiu aos seus pés. Num impulso, ditado pelo medo, mergulhou na piscina e enquanto se ia afogando, por não saber nadar, ainda conseguiu ver a namorada, qual fénix renascida, abraçada ao seu filho mais velho, o segundo da lista do seu partido nas próximas eleições de deputados.

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