Opinião Atual

Querido, Pai Natal...

Em minha casa ainda há duas meninas que acreditam no pai natal, a Olivia, a minha filha mais nova e eu, porque para ela acreditar importa que um adulto por perto também acredite... a vida é assim em tantas coisas: é mais fácil acreditar se acreditarmos juntos, é mais fácil conquistar uma vitória desportiva se alguém gritar pelo nosso nome na bancada, é mais fácil enfrentar a dor se não estivermos sozinhos, é mais fácil uma caminhada, se caminharmos acompanhados...

Assim é também com a imaginação... a Olivia já escreveu a sua carta ao Pai Natal, diz que se portou bem durante o ano, que é amiga dos seus amigos e que por isso merece presentes e expõe a sua lista de desejos. Desde que escreve ao pai natal, que mesmo não sendo totalmente verdade a parte do “portei-me bem”, ela consegue pelo menos 1 presente da sua lista.

Assim sendo, como lhe corre bem e eu há tantos anos que não escrevo ao Pai Natal, e como acredito para ela acreditar, vou arriscar este ano...

Cá vai ela:

Querido Pai Natal,

Espero que esta carta o encontre bem e rodeado de alegria, magia e amor, no Polo Norte. Desejo também que a Mãe Natal esteja forte e dinâmica, pois todos sabemos bem que é ela que gere toda a organização do Natal e o torna possível. Dê-lhe um abraço de admiração.

Há muito que não lhe escrevo, mas este ano senti uma vontade mais forte de acreditar.  Este ano “portei-me bem”, fui uma colega próxima, fui uma amiga como sempre a procurar agendar na vida o tempo para estar com os amigos, celebrei conquistas, chorei dores, tentei ser uma filha, mãe e uma mulher melhor do que no ano anterior... acho que isso é bom e dá direito e presentes.

Assim, tenho uma lista pequena de 2 pedidos, não gostava de abdicar de nenhum. Vou falar-lhe deles:

1

O mundo tem cada vez mais pessoas, que são obrigadas ou com vontade própria a abandonarem os seus lares devido a conflitos, pobreza ou catástrofes climáticas, procuram um lugar seguro e oportunidades para recomeçar, um lugar onde sonhar seja possível. O nosso país, a região do Alentejo, a minha terra são muito procuradas por estas pessoas, na sua maioria, todos à procura de uma vida melhor.

Apesar da generosidade de muitos, nem sempre há políticas eficazes ou acolhimento digno para aqueles que chegam. Ainda na semana passada em Lisboa, a PSP armada, com a cara tapada, encostou a uma parede dezenas e dezenas de homens, de tez escura, insuspeitos de terem praticado qualquer crime, e foram vigiados de perto e revistados. Esta é uma humilhação concreta de pessoas quase todas imigrantes, que tem uma dimensão de violência simbólica e que devia ser repudiada por todos nós.

O Governo diz que é uma estratégia de prevenção, para aumentar a sensação de tranquilidade.

Querido Pai Natal, eu não fiquei tranquila, nem entendo como podemos ficar tranquilos em ver as forças de segurança tratarem de forma tão humilhante imigrantes nas ruas do nosso país. Este não é o meu país.

Peço por isso Pai Natal, que as pessoas do nosso país se unam para criar soluções mais humanas e solidárias, onde todas as pessoas possam encontrar segurança, respeito e oportunidade. Queria pedir-lhe sapiência, empatia e humanidade para os homens e mulheres que governam o nosso país...será que eles se conseguem imaginar a passar numa rua e serem encostados à parede?

2

Em Portugal e no Mundo, todos os dias, inúmeras mulheres e raparigas são vítimas de algum tipo de violência. A violência doméstica, nas suas diversas formas, o tráfico humano, a violação e outras agressões sexuais, o casamento forçado, a mutilação genital feminina são crimes que afetam de forma brutal os direitos humanos.


Tenhamos presente que, segundo dados da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia, 1 em cada 3 mulheres, já foram vítimas de violência física ou sexual e que esta realidade dramática não tem fronteiras geográficas nem sociais. 

A violência contra as mulheres e raparigas não depende do grau de escolarização das vítimas ou dos agressores, nem da sua condição económica. Depende, única e simplesmente, do facto de serem mulheres e raparigas. Até ao final de novembro deste ano, em Portugal, 15 homens mataram as mulheres, companheiras, namoradas ou filhas.

O que está em causa, na violência doméstica não é apenas a agressão e os efeitos devastadores que tem na vítima. Trata-se, demasiadas vezes, de destituir a vítima da sua liberdade, da sua dignidade, do seu livre-arbítrio.

Por isso nenhum de nós está dispensado deste combate.

Querido Pai Natal, peço que garantas junto de todas as crianças contextos que permitam o desenvolvimento de competências de comunicação, de escuta ativa, de resolução não violenta de conflitos, de consentimento, de integridade pessoal e que sejam abordadas as questões de igualdade de género. Temas da construção da personalidade e da identidade que deverão manter-se ao longo da adolescência e desenvolver-se na idade adulta.

É deste património interpessoal e social que temos de saber cuidar para que seja possível vivermos num país sem violência.

Sonho com um país onde a democracia, a liberdade, o respeito por todas as pessoas, a igualdade de género, não sejam apenas um ideal, mas uma realidade vivida todos os dias.

Querido Pai Natal, sei que o seu saco de presentes não pode trazer soluções mágicas para estes problemas complexos, mas talvez possa inspirar nos corações das pessoas o desejo de agir com empatia, coragem e justiça social.

 

Feliz Natal


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