Opinião Atual

Protesto ou Progresso: nas Autárquicas quem vai abrir a porta ao populismo?

A divisão entre interior e litoral tem sido uma narrativa persistente, mas talvez seja tempo de a desconstruirmos. Portugal é um país demasiado pequeno para alimentar esta dicotomia provinciana. O interior não é apenas um espaço de desafios e o litoral não é apenas um polo de desenvolvimento. Ambos enfrentam problemas distintos, mas igualmente estruturais, e é fundamental encarar o território como um todo interligado.

O Alentejo, marcado por uma baixa densidade populacional e por um progressivo envelhecimento, enfrenta desafios que exigem políticas públicas eficazes e uma gestão estratégica do território. Longe de ser um cenário de resignação, esta é uma região de resiliência, potencial e inovação, onde as comunidades continuam a encontrar soluções para os seus problemas e a investir no seu próprio desenvolvimento.

Para além das disparidades territoriais, há uma questão mais profunda a considerar: a necessidade de uma democracia mais participativa e representativa. A falta de acesso a serviços, a precarização do trabalho e a desvalorização de sectores essenciais não podem ser encaradas como destino inevitável, mas sim como problemas que exigem soluções concretas e eficazes. Quando um país não consegue garantir coesão territorial, compromete a sua própria sustentabilidade política e social. O facto de o Alentejo passar por estas dificuldades deveria ser também preocupação do Minho. O facto de o litoral ter habitação a preços incomportáveis deveria ser também preocupação das Beiras. Coesão territorial é também preocuparmo-nos uns com os outros.

E é esta falta de cuidado e preocupação que leva ao crescimento da extrema-direita um pouco por todo o território, mas especialmente no Alentejo. Trata-se de uma procura por alternativas num contexto onde o sentimento de abandono leva a uma maior exigência por respostas políticas. No entanto, nem todas as respostas são boas respostas, e o perigo está na facilidade com que discursos inflamados e raivosos conquistam espaço quando a população está desiludida. Em Beja, este perigo assume contornos ainda mais sérios, pois o CHEGA pode conseguir eleger um vereador para a Câmara Municipal e dois ou três deputados para a Assembleia Municipal. A sua presença nestes órgãos decisores pode significar um bloqueio à governação, uma cultura de conflito constante e um afastamento de investidores que procuram estabilidade e visão estratégica.

Beja não pode cair na armadilha do discurso fácil e da revolta sem solução. A história ensina-nos que a indignação mal canalizada leva a retrocessos e à destruição da própria capacidade de resolver os problemas estruturais. O que o concelho precisa não é de gritaria nos plenários municipais ou de confrontos estéreis. Precisa de estratégias para captar investimento, criar emprego qualificado, reforçar a qualidade dos serviços públicos e desenvolver uma política que coloque Beja num caminho de crescimento sustentado e de gente que saiba o que isso é e consiga pôr em prática políticas efectivamente capazes.

Os eleitos que representam o interior devem prestar contas, sem rodeios, a quem os elege. Ser político não pode ser um caminho para benefícios pessoais ou ataques provincianos directos a quem quer pensar ou fazer construtivamente de maneira diferente. Deve ser um serviço público responsável e temporário. Quem assume cargos políticos deve compreender a realidade do trabalho diário, saber o que é produzir para um objectivo maior do que si próprio e reconhecer que, uma vez terminada a sua missão, regressará ao mercado de trabalho como qualquer outro cidadão. A política deve ser um exercício de compromisso com a comunidade e não uma oportunidade para perpetuar privilégios.

Repensar o futuro do país exige uma abordagem integradora e proactiva. Incentivar o desenvolvimento de serviços e infra-estrutura no interior é tão vital quanto garantir um crescimento ordenado e sustentável no litoral. Não há um "nós" e um "eles", porque o país é um só. Mais do que dicotomias, precisamos de estratégias que criem equilíbrio entre os territórios e promovam um Portugal coeso, inovador e dinâmico. Este ano, mais do que nunca, temos de saber exigir respostas concretas dos nossos representantes e abandonar o tradicional encolher de ombros. Garantir que a democracia se fortalece com um país onde todos os cidadãos, independentemente do seu local de residência, sintam que fazem parte do projecto colectivo. Em Beja, isso significa rejeitar o caminho do populismo e optar por uma liderança séria, visionária e com verdadeiro compromisso com o futuro. Que saiba o que quer, criar pontes com o resto do país e trazer prosperidade para o concelho e esperança para a cidade.

A responsabilidade do crescimento da extrema-direita é de todos, mas principalmente dos políticos que não cumprem o propósito da sua existência.

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