OS IDIOTAS VÃO TOMAR CONTA DO MUNDO; NÃO PELA CAPACIDADE, MAS PELA QUANTIDADE. ELES SÃO MUITOS *.
“Bücherverbrennung” significa, em alemão, queima de livros. Após a subida ao poder de Adolf Hitler, numa manifestação de propaganda nacional-socialista, especialmente entre Maio e Junho de 1933, com particular incidência nas cidades de Berlim e de Munique, foram feitas grandes piras de livros, de autores considerados “impuros”, por serem críticos ou contrários ao regime vigente.
Esta destruição massiva incluiu obras de Albert Einstein, Alfred Kerr, Bertolt Brecht, Erich Maria Remarque, Friedrich Nietzsche, Heinrich Mann, Joseph Roth, Robert Musil, Sigmund Freud, Thomas Mann, Walter Benjamin, entre outros, e foi uma de entre muitas outras formas de um regime totalitário, numa expressão do fascismo, exercer a censura: criou um bloqueio à liberdade do saber, do pensar e do combater pelo direito à opinião, sob a égide da “purificação” (assegurar a exclusão de todos os elementos que pudessem perturbar a cultura alemã em vigor).
É curioso como as “Studentenverbindung” (fraternidades estudantis) participaram zelosamente nesta selvageria, neste atentado contra a liberdade de expressão, competindo entre si, acirradas, para provar maiores capacidades individuais.
Face a isto, também é interessante observar o facto de a sociedade, em geral, ter optado por assumir o papel de observadora, à distância: os intelectuais, descorçoados e desesperançados, não se opuseram activamente a este estrago; as editoras e as distribuidoras aproveitaram a eminente “oportunidade” comercial; a comunidade internacional pareceu desvalorizá-lo, remetendo o acto para uma expressão momentânea de fanatismo estudantil.
Mas, tal como vaticinou Heinrich Heine, numa citação na tragédia “Almansor”, escrita mais de 100 anos antes da “Bücherverbrennung”, e hoje inscrita numa placa de bronze no Bebelplatz, em Berlim, “Das war ein Vorspiel nur, dort wo man Bücher verbrennt, verbrennt Man auch am Ende Menschen” (“Isto foi apenas um prelúdio – onde se queimam livros, acabarão por se queimar também pessoas”). Efectivamente, foi o que veio a acontecer nas câmaras de gás, destinadas ao assassinato em massa, nos campos de concentração da Alemanha nazista.
Muitos outros exemplos de exercício prepotente do poder poder-se-iam citar. Em finais de Setembro de 2020, segundo o que é referenciado na “orientação do Departamento de Educação (DfE), citada pelo The Guardian”, o governo britânico assumiu que “As escolas não devem, em hipótese alguma, usar recursos produzidos por organizações que assumem posições políticas extremas sobre o assunto (...) mesmo que o material em si não seja extremo, o seu uso pode significar um endosso ou apoio a essa organização”. Ainda em Inglaterra, também não é despiciendo relembrar uma frase com a qual Margareth Thatcher terminou uma famosa entrevista, que traduzia a sua ideia de governação: "A Economia é o método. O objetivo é mudar o coração e a alma". Ora, para que essa mudança aconteça, o controlo de quem ousa pensar e de quem ousa falar é essencial! A montante, o controlo primário e primitivo da informação a que os jovens têm acesso, a começar pelo controlo dos professores e do ensino, afigura-se como condição sine qua non.
Assim, na actualidade, mesmo em regimes democráticos, em contextos políticos (partidários ou não), a partir do momento em que começam a surgir restrições à liberdade de expressão, ameaças aos opositores, assim como a popularização do recurso a outros meios de abuso na tentativa de manter o poder, estamos de volta à tirania. E não exactamente à tirania, tal como Aristóteles e Platão a concebiam: uma alternativa à democracia, usada apenas em situações muito particulares. Se bem que, uma vez no comando, identicamente, “(…) o tirano revoga a legislação em vigor, sobrepondo-a com regras estabelecidas de acordo com as conveniências para a sua perpetuação deste poder".
Hoje a “coisa” é mais “refinada”: a moderna tirania é exercida por escroques, autodenominados democratas, que por via do populismo paternalista, conseguem votos para aceder ao poder; para o preservarem, legitimam, lícita ou ilicitamente, todas e quaisquer ameaças às liberdades individuais e colectivas, em regra propagandeadas para fins salvíficos. Afinal, já que deixaram de poder matar (literalmente) o opositor, ou de o prender de qualquer maneira, há que o encurralar para, depois, o vergar, o “abater”. Processos judiciais por calúnia e difamação são uma “arma” muito querida e muito usada por estes idiotas. Mesmo discordante, o lado ético do confronto terá de pensar na sua defesa e não é fácil conversar com quem se considera, de antemão, “cheio da sua razão”. Então, a tendência é entrar-se num círculo vicioso, de justiça retributiva (“olho por olho, dente por dente”), que quando aplicada nestes termos, pode levar a um ciclo de represálias que devasta o sistema, promovendo mais destruição do que reparação. E esse é o grande problema: quando um sistema se desvia dos seus valores éticos para se proteger, quando a resposta ao “mal” acaba por gerar ressentimentos e propagar o conflito, em vez de resolvê-lo, o sistema arrisca-se a ruir, na medida em que perde sua legitimidade.
De facto, em qualquer circunstância que configure a convivência de governantes, governados e estruturas a governar, para além da época, do motivo, da dimensão e da área de actuação, existe sempre espaço para os aproveitadores do sistema, para os chico-espertos, habitualmente rodeados de bajuladores que evoluem, numa escala de importância e de influência social, dos engraxadores para os lambe-botas e, destes, para os culambistas.
Permitam-me adornar este esplendoroso “quadro” com mais duas alusões:
a) a uma história que costuma vir à baila quando se fala de política (reforço, não necessariamente partidária): Consta que num determinado dia, Churchill terá recebido um deputado jovem, eleito pela primeira vez, na bancada do Partido Conservador em Westminster. O rapaz terá demorado o seu olhar nos deputados do Partido Trabalhista, sentados na bancada à sua frente, enquanto terá dito “É ali que estão os nossos inimigos”. Churchill logo o terá corrigido, dizendo “Ali sentam-se os nossos adversários, os nossos inimigos sentam-se aqui, ao nosso lado”;
b) a uma crónica do genial Alexandre O'Neill, intitulada “Idiotia e Felicidade”. Inicia com a pergunta: “Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor?” E termina assim: “Não se espante, por conseguinte, o leitor de que um qualquer idiota possa, ao mesmo tempo, ser feliz. É, até, assaz corrente. Há idiotas que se consideram inteligentíssimos, o que é uma forma muito comum de idiotia, e extraem dessa certeza alguma felicidade, aquela maneira de felicidade que consiste em uma pessoa se julgar muito superior às que a rodeiam.
O leitor gostaria de ser ministro ou secretário de Estado? Pois fique sabendo que há quem goste, embora - será justo dizê-lo - também há quem o seja a contra-gosto, por dever partidário ou patriótico.
Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima com poder, é, quase sempre, um perigo.
Oremos.
Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa.”
Hum…Vejam lá como esta crónica se alongou… Desculpem, mas já estou à pressa: vou guardar as pérolas para o pescoço; pena que os porcos não estão interessados nelas.
*Nélson Rodrigues, escritor e jornalista brasileiro
Foto:© Scherl/Süddeutsche Zeitung Foto