O Medo Do Outro Que Exteriormente Surge Como Diferente
Agora que um grupo de imigrantes veio viver para a minha rua, numas casas sem condições, um autêntico pardeiro, é que eu tomei consciência que a vida deles é igual àquela que tínhamos quando trabalhávamos como assalariadas rurais na herdade do lavrador do sobreiral.
Antónia da Ponte deu um arranjo rápido na casa, tomou o pequeno almoço apressada, uma chávena de café com uma popia de azeite e saiu para a rua em passo ligeiro. Estava atrasada, mas com um pouco de sorte ainda poderia comprar o pão que ela e o seu marido tanto gostavam. Ao virar da esquina que antecede o pequeno largo onde se encontra a Igreja dedicada a S. Rafael viu um grupo de homens que nunca antes tinha visto na localidade. Olhou-os de longe e sentiu-se insegura. Tinham a tez muito morena. Uns usavam turbante e outros uma espécie de blusa comprida com um capuz na cabeça, escondendo uma parte do rosto. Perante esta visão encostou-se o mais que pode à parede e acelerou ainda mais o passo e lá seguiu a caminho da mercearia da localidade. Chegou cansada, a arfar, pelo que a primeira coisa que fez foi sentar-se ao mesmo tempo que sentia uma sensação de alívio. O pão não se tinha esgotado e já não estava sozinha. Estava acompanhada pelos seus.
Recuperado o fôlego, enquanto fazia as compras, lá foi relatando o encontro que tinha tido e o desconforto que tal lhe tinha causado. Uma outra mulher que tinha acabado de chegar, apanhando, no entanto, ainda a conversa, de imediato comentou: “Isto está uma vergonha com a vinda dessa gente sabe-se lá de onde. Na terra da minha prima, que aqui o senhor António bem conhece, desde que esse pessoal veio para trabalhar nos olivais que os assaltos não param e as raparigas já nem saem de casa com medo de serem atacadas”. O senhor António, que era o homem que trazia o pão, ainda retorquiu que a senhora Mariana devia estar mal informada, pois o que ela dizia não era verdade. Ele, que vivia nessa localidade, não tinha dado por nenhum assalto nem tinha ouvido qualquer outra queixa em relação aos imigrantes que habitavam na localidade. A mulher não se deu, contudo, por convencida e sentenciou: “Não sei, foi o que me contaram e não há fumo sem fogo. O André Ventura é que diz as verdades”.
Antónia da Ponte, depois de fazer as compras e antes de chegar a casa, passou, ainda, pela loja de eletrodomésticos do senhor Antunes, filho do antigo regedor da freguesia, os olhos e ouvidos do Presidente da Câmara antes do 25 de abril de 1974 e informador da PIDE / DGS, a sinistra polícia política do fascismo. Antunes nunca se meteu em política, pois, como ele dizia, “isto dos partidos é tudo uma cambada de chupistas”, mas não perdia uma única oportunidade para, de forma subtil, enaltecer a figura de Salazar. Corria mesmo o boato na freguesia que ele, num lugar da casa, vedado às visitas, possuía um altar dedicado ao ditador, com fotografia, um terço e velas acesas dia e noite.
Assim que entrou na loja do Antunes, Antónia da Ponte percebeu logo que a animada conversa que aí se desenvolvia tinha como tema os imigrantes que tinham acabado de chegar à freguesia para trabalharem no olival dos espanhóis que o tinham plantado na herdade arrendada, dizia-se que por 25 anos, aos filhos do lavrador do sobreiral, 500 hectares de boa terra. A voz do Antunes fazia-se ouvir perante o silêncio geral: “Ao que chegámos. Foi o que deu a liberdade a quem não a sabe usar. A GNR e a polícia já não têm qualquer autoridade. Prendem os ladrões, mas é só virar as costas e já estão na rua. Agora com a vinda desta gente é que vai ser o bonito. Isto são tudo rufias, gente perigosa. Não sei se têm visto o que eles fazem lá para a zona de Lisboa. É só assaltos e ataques às pessoas com naifas. E ainda por cima recebem dinheiro do Estado e têm médico à borla com o nosso dinheiro. E os políticos, o que fazem? Nada. No meio disto tudo só se salva o André Ventura. Ele é que diz as verdades”.
“Então, vizinha Antónia, lá fomos votar mais uma vez. Os nossos não ganham, mas a gente continua firme a pôr a cruzinha nos valores de abril, que isto um dia vai mudar como mudou há cinquenta anos.
“Boa tarde, vizinha, desta vez mudei o voto. Votei no André Ventura. Assustei-me com estes moços que vieram lá de longe. Só depois de votar é que caí em mim e percebi que me tinha deixado influenciar pelo “Correio da Manhã”, pela televisão, pelo André Ventura e pelas mentiras do Antunes dos eletrodomésticos. Às vezes parece que a gente deixa de pensar ao mesmo tempo que perde a memória. Agora que um grupo de imigrantes veio viver para a minha rua, numas casas sem condições, um autêntico pardieiro, é que eu tomei consciência que a vida deles é igual àquela que tínhamos quando trabalhávamos, no tempo do fascismo, como assalariadas rurais na herdade do lavrador do sobreiral e que a sua violência é como aquela que, então, exteriorizávamos rodeadas de miséria: gritos de dor e raiva no silêncio da noite”.