MAU TEMPO, BOA CARA
Chove. Chove e não para de chover. Chove tanto que nos aborrece, nos farta e nos enjoa a água incessante ao ponto exatamente igual ao desespero das secas precedentes, dos rios dormentes, vazios e inúteis. Tudo agora flui em demasia. Desperdício de futuros. Ciclo que tarde ou cedo se repete, tocado a ventos do Sul, tempestades de um tempo com nomes, em meses curtos, húmidos de fecundidades a ir esquecendo. Que ela volta. Volta sempre a secura voraz, esterilizante. A nossa, a da alma, a que nos faz chorar por água. Por chuva que nos aborrece e impede de fazer tudo o que nos permitirá fazer.
Somos assim, como este clima mediterrânico estreito e atreito a constantes alterações na sua imutável constante irregularidade. Parece mais humano que consequência humana. Será por ele que somos assim? Volúveis, nunca iguais, insatisfeitos, dados aos excessos, mais humano que moldado por homens.
Há que descobrir estoicismo para sobreviver, conviver e até viver de e com um clima assim inconstante e louco. Talvez procurar nas “Meditações” de Marco Aurélio (Imperador romano) “56-Considera-te morto, a tua vida finda e ultrapassada. Vive com o que ainda te resta segundo as Leis da natureza, como um excedente que te foi concedido para além das tuas esperanças.”
Ao mau tempo, boa cara.