Opinião Atual

Hipotética fábula entre pássaros nos campos do Alentejo

Numa hipotética fábula entre pássaros nos campos do Alentejo, o assunto central poderia ser sobre o abandono da agricultura dos cereais (trigo, cevada, aveia, etc.) e o crescimento da cultura intensiva de amendoais, olivais ou mesmo das vinhas. Por isso, a dúvida colocada pelos diferentes pássaros seria sobre as suas próprias sobrevivências como se essa fosse a metáfora aplicada à própria vida das populações do Alentejo, em especial das aldeias que continuam a ficar sem gente e com as suas casas, de sempre, em completa ruína.

Pensemos, com o devido cuidado, sobre a metáfora integrada nessa possível fábula: - 

Era uma manhã dourada nos campos do Alentejo, onde o sol acariciava suavemente as colinas e os montes. Entre as ervas secas e os restos dos antigos campos de trigo, reuniram-se os pássaros da região para um debate incomum. Pardais, andorinhas, rolas e até as majestosas abetardas do Camo Branco compunham a assembleia, cada um com a sua história de sobrevivência e preocupação.

Na fábula, o velho pardal de penas gastas iniciou o diálogo: "Outrora, tínhamos cereais em abundância, sementes que alimentavam nossas famílias. Os campos eram vida, eram casa. Mas agora... só vemos amendoais e olivais, que não oferecem a mesma fartura."

A andorinha, conhecida por suas longas viagens, respondeu com tristeza: "Sim, os amendoais e olivais não são generosos com a nossa espécie. E as vinhas? São belas, mas inúteis para nós. O que será do nosso futuro neste lugar?"

Os pássaros começaram então a refletir sobre o impacto dessa transformação. As rolas, geralmente calmas, lamentaram: "Nossos ninhos eram feitos nos campos esquecidos. Agora, tudo se perde entre árvores que não nos acolhem. Parece que este lugar, tão antigo e pleno, esqueceu de nós."

A abetarda, a mais imponente, mas também a mais sábia, observou as aldeias distantes. "Não é apenas a terra que muda. Vejam as casas. Vazias. Abandonadas. Eram os humildes trabalhadores alentejanos que ali viviam e cuidavam dos campos que deixavam o trigo crescer. Como se verifica, a grande maioria destas pessoas também se estão indo embora, pois, a sua qualidade de vida está cada vez mais degradada. Na verdade, talvez este abandono seja mais profundo do que podemos entender."

Os pássaros concluíram que não era só o trigo, a cevada ou a aveia que estavam sendo deixados para trás. Era toda uma tradição, um modo de vida, um espírito que dava alma ao Alentejo, que se está perdendo. A metáfora estava clara: assim como os pássaros lutavam por sobrevivência, as aldeias e suas populações também enfrentavam o desafio de permanecer, de resistir às mudanças que as empurravam para o esquecimento.

Nos dias seguintes, os pássaros continuaram a procurar alternativas para sobreviver. Alguns migraram, outros adaptaram-se como puderam. E nas aldeias, os poucos que restaram tentaram preservar o que ainda era possível. Mas as ruínas lembravam, dia após dia, que havia algo maior em jogo — a luta pela identidade e pela permanência de um Alentejo que, como os pássaros, buscava desesperadamente não desaparecer.

Essa fábula não oferece solução fácil, mas ilustra o ciclo contínuo de mudança e adaptação que tanto as criaturas da natureza quanto os humanos enfrentam. Talvez, em algum canto futuro, os campos do Alentejo voltem a florescer com trigo e memórias, e os pássaros voltem a cantar, acompanhados pela vida que uma vez prosperou ali.

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