Opinião Atual

Eça… de tantas essas(*)!

Neste mundo recheado de hipocrisias e póstumas efemérides, muitos são os seres que apesar de em vida terem rejeitado ou não alimentado tais comportamentos, constituem motivo para enfáticas e laudatórias homenagens.

Esse parece ser o fluir ou condão de uma certa ironia, de mau gosto. Por isso, não havendo o pudor pelo respeito de quem, em vida, sempre se alheou de palcos mediáticos ou se afastou das fantasias de outros.

Exemplos não faltam, quer no panorama universal, quer no panorama nacional, regional ou mesmo em contextos localizados.

Quantos resilientes pensadores, cientistas ou até gente comum houve, cujas vidas decorreram longe dos mediatismos à época ou, pelo menos, menos reconhecidos nos seus intrínsecos méritos ou posicionamentos e acções públicas!

Galileu, Camões, Bocage,…, tantos e tantas estão neste rol ! Muitos e muitas, mesmo!

Nos últimos tempos assistimos a um certo emergir de laudatórias homenagens, as quais, sem generalizar, também servem para “dar palco” aos seus promotores “à boleia” dos homenageados. Embora tais homenageados mereçam genuinamente ser reconhecidos, terminam por ser uma razão para enquadramentos que fogem à natureza e à essência dos seus méritos… e são grandes!

José Maria de Eça de Queiroz, também escrito “Eça de Queirós”, notável escritor e diplomata português, considerado um dos mais importantes escritores portugueses de todos os tempos é uma destas figuras. Sim, essa resiliente pessoa que, através de magníficas palavras de ímpar tinte literário e filosófico, denunciou a sociedade, organizações e muitos dos dirigentes da sua contemporaneidade, acaba de merecer homenagem de Estado de ímpar dignidade, trasladando o seu cadáver desde o cemitério de Santa Cruz do Douro para o Panteão Nacional. Recorda-se que Eça de Queiroz morreu a 16 de agosto de 1900. Sendo inicialmente sepultado em Lisboa, em Setembro de 1989, os seus restos mortais seriam transportados do Cemitério do Alto de São João, Lisboa, para um jazigo de família, no cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião.

Ironia das ironias: - Ousando mesmo recorrer a muita da sua obra e posicionamentos cívicos, intelectuais ou literários, eis que uma significativa mol de ilustres dos nossos tempos muito se empenharam para tomar assento no púlpito de póstumas homenagens a um dos símbolos mais contestatários da sociedade e dirigentes do seu tempo, como se as circunstâncias das épocas não tivessem decalque nas suas semelhanças mais gerais.

Por fim, confundindo-se com a ironia queirosiana, a meteorologia não contribuiu mesmo nada para uma maior visibilidade desta edição laudatória fúnebre na última etapa dessa repetida viagem do cadáver do romancista, entre o Douro e o Tejo. Com efeito, tal circunstância natural, mais ou menos previsível mas não manipulável, foi especialmente sentida por quem foi brindado por uma intensa chuvada ao longo das ruas de Lisboa até ao Panteão Nacional, contrastando, aliás, com a impermeabilidade de uma igreja, sem goteiras portanto, recheada de putativos destinatários de alguma possível ou imaginária actual “farpa”, caso o romancista ainda tivesse capacidade escritora no presente, talvez recorrendo ao mote de alguma analogia entre as sucessivas transferências geográficas de um cadáver e ao adágio popular “Obras de Santa Engrácia”.

Fica-nos o mérito de um romancista de altíssimo mérito e de um sábio resiliente cidadão.

(*) Essa = Estrado onde se coloca o caixão do cadáver durante as cerimónias fúnebres que precedem o enterro.

 

Por opção do autor, escrito sem obedecer ao (des)Acordo Ortográfico de 1990. 

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