Afastamento generalizado (ou não vinculação) dos cidadãos face aos interesses colectivos (bem comum)
A título de simples exercício de pensamento, e por isso procurando não nos deixarmos contaminar por indicadores conotativos, quer de natureza ideológica quer de qualquer outra natureza, verificamos, por exemplo, que as elevadíssimas taxas de abstenção nos sucessivos momentos eleitorais, bem como as resultantes político-partidárias que lhes sucedem, apenas reflectem uma inevitabilidade face às dinâmicas pessoais, grupais, organizacionais e sociais (em sentido amplo) em que vivemos.
Tal como no exemplo apresentado onde a resultante é essa progressiva taxa de abstenção, verificamos que nos nossos contextos de vida mais próxima há uma igual progressiva redução da participação individual na vida das organizações, mesmo naquelas que têm nas respectivas missões e atribuições a procura do bem comum ou de interesses específicos colectivos. Se esta realidade existe nas organizações culturais, recreativas, desportivas ou sociais locais, o mesmo se verifica, inclusivamente, nas organizações cívicas de natureza política, onde o grau de adesão, por exemplo, nas organizações dos processos eleitorais ou preparação de listas político-partidárias chega a ser um verdadeiro suplício para quem lidera (ou não!) localmente.
A resultante é, infelizmente, bem conhecida!
Então, sem querer teorizar uma matéria que é mesmo “vulgar de Lineu” (e, por isso, óbvia!), talvez possamos recorrer, de forma metafórica, àquela sábia afirmação do químico Antoine-Laurent de Lavoisier ("Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma!"… importando recordar aqui que esta afirmação representa o “princípio fundamental da lei da conservação da matéria”, o qual estabelece que a massa total num sistema isolado permanece constante, embora possa mudar de forma!) e considerar que tudo o que acontece não decorre de qualquer fenómeno raro, transcendente ou sobrenatural; pelo contrário, o que está a suceder entre nós é apenas a consequência de um dinâmico processo de transformação do comportamento humano e dos respectivos “habitats”, onde a fundamentação das vidas individuais e colectivas tende a desviar-se do horizonte afim à harmonização, cooperação e construção do bem comum, substituindo-se progressivamente na consolidação de atitudes contrárias às normas e aos valores da solidariedade humana (da interacção e da interdependência em contexto de Liberdade) e, de uma forma mais genérica, dando preferência aos processos egocêntricos e polarizados, onde o “caldo operacional” se traduz em radicalismos e em todo o tipo comportamentos contrários às liberdades (individuais ou colectivas) ou, entre muitos outros factores, à consequente ausência de sentido identitário inclusivo.
Está sobejamente demonstrado que o facilitismo, a passividade ou mesmo a anulação das nossas identidades têm forte correlação com a progressiva alienação (individual e colectiva), com a cristalização de formas de vida em muitos casos alheias à procura da cooperação e da solidariedade ou, por isso, da construção de um futuro baseado na defesa dos direitos, liberdades e garantias. Por outro lado, sabemos que o “espaço vazio” deixado pelo afastamento ou não vinculação dos indivíduos, dos grupos ou das organizações face ao bem comum é um “engodo” apetecível para quem quer, perversamente, contrariar e consolidar um sistema psicossocial contrário à vida em Liberdade e em Democracia. Recorrendo àquela sábia expressão da nossa enorme Sophia, “vemos, ouvimos e lemos”…e… “não podemos ignorar”!
Para a demonstração desta “inversão” dos valores humanos (ou melhor, da passagem de “valores humanos” a “contra-valores humanos”) basta pensarmos no que está a acontecer nos nossos tempos… em muitos e variados domínios!
Fazendo uma “viagem” pelos dados que se nos apresentam nas mais diversas fontes de informação (e contextos!) ou através da nossa própria observação, concluimos que esta inversão de “valores” permite, por exemplo, que se verifiquem elevadíssimas taxas da abstenção ou, em sentido mais “parametrizado”, ao crescimento de radicalismos no quadro das representações políticas formais, chegando a colocar em risco a governabilidade, a gestão e a administração do nosso próprio país ou mesmo das nossas comunidades locais.
Os nossos tempos, nas suas inúmeras e diversas circunstâncias, têm-nos evidenciado alguns contextos e situações que, observados desde os comportamentos individuais até às suas formas de interacção e interdependência nos diversos planos colectivos, merecem uma reflexão séria sob pena de se poder cair na progressiva desintegração daquilo que é mais importante sob o ponto de vista pessoal e social, ou seja, a própria garantia da salvaguarda dos valores humanos (centrada na vida de cada um ou mesmo na sua resultante colectiva).
Não parece ser difícil demonstrar que assistimos, de uma forma mais ou menos generalizada, a um significativo número de casos em que o grau de afastamento dos indivíduos das “coisas do bem comum” não só as tornam mais frágeis nos planos singulares como, no plano colectivo, abrem espaço à proliferação da perversão.
Concluindo, gostaria de sublinhar – em forma de alerta! - que esta trajetória generalizada de “afastamento” ou “alienação” por parte dos indivíduos face ao processo interactivo e interdependente no âmbito da construção e manutenção do bem comum pode minar todo o “conforto” e solidez de uma sociedade Livre e Democrática como a que (ainda!) temos.
Demostrado está que o processo de construção e reconstrução das identidades dos indivíduos (tal como o seu contrário!) começa nos mais imediatos grupos (famílias, grupos locais ou organizacionais, por exemplo), sendo que a interação e a interdependência humanas são as formas mais eficientes e eficazes para a partilha de objetivos, regras e valores, entre outros, exercendo uma influência considerável e imprescindível para a vida em sociedade.
Manuel Maria Feio Barroso
Por opção do autor, este texto foi escrito sem a conformidade do (des)Acordo Ortográfico de 1990.