Há vidas assim...

A Solidão Mata

O vazio da casa deprimia-o. Muitas vezes nem jantar conseguia. Um cansaço e uma falta de vontade para tudo tinham tomado conta dele.

Havia seis meses que ele reparava nela. Tinham ceifado juntos e apanhado azeitona para o mesmo patrão. À medida que o tempo passava o seu pensamento era cada vez mais preenchido pela figura, pelo rosto e pelo sorriso dela. Ela, por seu turno, achava-o jeitoso, sentindo, de forma cada vez mais intensa, que ele não lhe era indiferente. No baile de terça-feira de carnaval ele encheu-se de coragem e declarou-lhe os seus sentimentos. Ela disse que sim e iniciaram um namoro que durou um ano. Às quintas-feiras e domingos ele chegava-se à janela e conversavam da vida que tinham e da que queriam construir. Por fim casaram. O amor não era grande, mas os filhos e a luta pela subsistência uniram o casal. O tempo trouxe o hábito de estarem juntos, com o desamor entre ambos a ganhar cada vez mais espaço no mundo dos afetos. As recriminações mútuas sucediam-se na vida isolada que levavam, com os filhos e os netos lá longe, na cidade grande. Se ele entrava pelo corredor da casa com as botas enlameadas ou se esquecia das chaves quando saía à rua, a crítica dela era persistente ao ponto de durar horas, o que o deixava à beira de um ataque de nervos. Se ela ia à cidade e comprava uma peça de roupa para mandar fazer um vestido ou qualquer objeto da moda destinado a embelezar a habitação, era a vez dele se insurgir violentamente contra o que considerava gastos desnecessários. As tréguas surgiam quando um deles trazia novidades da vila: algum divórcio, alguém que tinha ido à falência ou rumores sobre ligações amorosas fora do casamento. Nestas situações sentavam-se em frente um do outro e coscuvilhavam até ao ínfimo pormenor.

Entretanto ela adoeceu e a morte veio rápida, fulminante. Os filhos emigraram para a Suíça e com eles foram os netos e ele ficou só. A morte da mulher trouxe-lhe sentimentos desencontrados: a dor da perda e o alívio por se ver livre das recriminações de todos os dias. Agora, viúvo, ele viu o seu quotidiano alterar-se totalmente. De manhã atamancava um pequeno almoço, que mais não era que um naco de pão com o que havia: queijo, chouriço ou linguiça. Depois era a taberna de inverno e o adro da Igreja no verão. O almoço e o jantar eram trazidos a casa pelo apoio domiciliário da misericórdia e a tarde era passada no centro de dia. O pior eram as noites, a solidão da noite, onde qualquer sentimento atinge proporções ciclópicas. O vazio da casa deprimia-o. Muitas vezes nem jantar conseguia. Um cansaço e uma falta de vontade para tudo tinham tomado conta dele. Foi então que a solução começou a surgir no seu espírito, primeiro só a espaços, mas com o tempo emergindo de forma cada vez mais insistente. E foi, assim, que num fim de tarde de outono, depois de vestir o fato de casamento, ele se lançou no vácuo.

 

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