Morcegos ameaçam investimento de 350 milhões em energia solar e turismo em Moura
Um investimento estimado em cerca de 350 milhões de euros no concelho de Moura, que combina um projeto de energia solar com uma componente turística associada, está em risco após a emissão de uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) desfavorável pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), baseada num parecer do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
Foto: EDIA
O projeto CSF Alqueva, em desenvolvimento há cerca de sete anos, prevê a instalação de um parque solar acompanhado por um investimento turístico que depende diretamente da concretização da infraestrutura energética. Segundo os promotores, a inviabilização do projeto solar compromete igualmente um investimento turístico estimado em cerca de 50 milhões de euros previsto para o concelho.
Na sequência da decisão negativa emitida em janeiro de 2026, os investidores apresentaram uma reclamação administrativa da DIA desfavorável, defendendo que a avaliação ambiental ignora medidas de mitigação propostas e poderá conduzir, paradoxalmente, a uma maior perda de habitat para espécies protegidas.
O parecer do ICNF fundamenta-se sobretudo na presença de uma colónia de morcegos localizada a cerca de 1,5 quilómetros da área do empreendimento e nos potenciais impactos resultantes da redução de 158 hectares de olival utilizado como zona de alimentação para essas espécies.
Os promotores sustentam, contudo, que o projeto incluía um plano de mitigação ambiental numa área de 688 hectares, no mesmo raio de distância do abrigo de morcegos, quatro vezes superior à área de olival afetada. Esse plano incorporaria recomendações da associação CHIRO – Morcegos.pt e um parecer científico do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), da Universidade do Porto.
Segundo os investidores, a decisão levanta ainda um “paradoxo ambiental”, uma vez que o proprietário do terreno já terá autorização para proceder ao abate de olival numa área total de cerca de 211 hectares, caso o projeto solar não avance, o que poderia resultar numa perda de habitat superior e sem as medidas de mitigação previstas no âmbito do empreendimento energético.
Durante o processo de licenciamento ambiental, conduzido pela APA, o projeto foi reformulado em 2024, reduzindo em cerca de 27% a área ocupada, de forma a integrar recomendações técnicas das autoridades ambientais e responder às preocupações relacionadas com a conservação da natureza e a integração paisagística.
De acordo com os promotores, o investimento global permitiria criar centenas de postos de trabalho diretos e indiretos e dinamizar a economia local, apostando num modelo integrado que articula produção de energia renovável com desenvolvimento turístico no interior do país.
O projeto conta com o apoio do município de Moura, que reconhece o potencial da iniciativa para promover a diversificação económica e reforçar a atratividade do território.
Para os investidores, a decisão negativa levanta dúvidas sobre a capacidade de conciliar proteção ambiental com investimento e desenvolvimento territorial em regiões do interior, defendendo que a reapreciação da DIA, condicionada à implementação das medidas de mitigação propostas, permitiria concretizar o investimento garantindo simultaneamente a proteção da biodiversidade.
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