Mau tempo: Morador de casa demolida em Beja 'despede-se' do local onde viveu 32 anos
O único morador de um prédio em risco de derrocada que a Câmara de Beja está hoje a demolir, no centro da cidade, assiste, com tristeza, sentado numa cadeira, ao ‘derrubar’ de 32 anos da sua vida.
Foto: C.M.Beja
Neste prédio da Rua Alexandre Herculano, técnicos do município, com o apoio de uma retroescavadora e uma máquina giratória, procedem a trabalhos de demolição da casa, que já estava em mau estado, mas a situação agravou-se com as intempéries e algumas partes caíram nos últimos dias.
Esta manhã, a assistir aos trabalhos, encostado ao edifício de uma instituição bancária contíguo à casa, está Renato Brália, de 84 anos, que explica à agência Lusa ter ali vivido durante 32 anos.
“Vivia aqui com duas irmãs, mas uma morreu e a outra foi para o lar. E, agora, estava sozinho”, conta, relatando que, quando se abriu um buraco na parede da casa, não ouviu o barulho, nem deu por nada.
O idoso, o único a residir neste prédio que está hoje a ser demolido, foi retirado na sexta-feira pelos serviços municipais, juntamente com outras 33 pessoas de um outro edifício contíguo também em risco.
Desde então, está a viver na casa de um sobrinho, Manuel Brália, que esta manhã, ao seu lado, se junta a observar as operações de demolição.
“Em vez de lhe darem cinco minutos para sair, bastava terem-lhe dado mais 10 minutos, porque só trouxe a roupa que tinha no corpo, um pijama, cuecas e peúgos. O resto ficou lá tudo”, afirma o sobrinho.
Manuel Brália diz ter sido informado de que a câmara vai criar um gabinete para “depois se fazer uma candidatura”, admitindo não saber bem em concreto o que vai acontecer depois da demolição.
“Eles têm que decidir se a casa tem estruturas para poder ser reconstruída ou se é tudo para mandar fora”, sublinha.
Enfiado num grande quispo com o capuz posto na cabeça que lhe tapa a boca e em que praticamente só se veem os olhos por trás dos óculos, Renato esconde os sentimentos com cada pedaço da casa arrancado pelas máquinas, mas à Lusa admite a tristeza.
“Não chovia lá dentro. Quando se formou o buraco, colocaram uma vedação e nem me tocaram à campainha. Agora, não tenho cabeça, não tenho uma casinha, não tenho nada. Gostava de ter um local que fosse meu”, confessa.
Com o mau tempo, abriu-se, há dias, um buraco na parede deste edifício, enquanto o prédio contíguo, de onde foram retiradas as outras pessoas, também apresenta sinais de degradação.
Na sexta-feira, o município retirou os moradores dos dois prédios e encontrou respostas temporárias de alojamento para todos.
Quinze pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A contínua chuva tem provocado a subida do nível das águas dos rios e novas inundações em zonas urbanas, um pouco por todo o país.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
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