Casais de abutre-preto quase triplicaram em dois anos. Vidigueira tem a mais recente colónia
O abutre-preto, que está em perigo de extinção em Portugal, tem atualmente mais de 108 casais no país, quando há dois anos eram 40, anunciou a entidade responsável por um projeto de conservação da espécie. No concelho de Vidigueira há a mais recente colónia.
O balanço foi hoje divulgado pela “Vulture Conservation Foundation” (FVC), que coordena o projeto “LIFE Aegypius Return”, financiado pelo programa LIFE da União Europeia e que tem diversos parceiros, como o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e as Organizações Não-Governamentais (ONG) Rewilding Portugal e Quercus.
Quando começou há dois anos, o objetivo era duplicar a população reprodutora de abutre-preto em Portugal, então estimada em 40 casais, em quatro colónias.
“Em 2024, o projeto registou 108 a 116 casais nidificantes, que produziram pelo menos 48 crias voadoras. O sucesso reprodutor aumentou ligeiramente e também já se conhece uma nova e quinta colónia reprodutora, mais uma evidência da expansão desta espécie ameaçada no país”, resume a FVC em comunicado.
Milene Matos, da FVC, explicou à Lusa que os dados só contemplam crias com mais de 100 dias, altura em que se tornam voadoras, porque há uma grande percentagem de crias que morrem antes.
Segundo a responsável o “sucesso reprodutivo” também aumentou nos últimos dois anos, medido pelo número de posturas que resultam em crias, com mais de metade das crias a sobreviverem atualmente (51%).
Em 2023, com um ano do projeto “LIFE Aegypius Return”, estavam registados 78 a 81 casais nidificantes. O aumento considerável poderia refletir, entendem os responsáveis da ação, o esforço de monitorização e menos o crescimento.
“Já o aumento registado em 2024 deve-se exclusivamente à natural expansão da espécie, resultado das medidas de conservação que têm vindo a ser aplicadas”, quer através deste e de projetos anteriores e também “graças a uma tímida, mas generalizada, melhoria nas condições do habitat e tranquilidade requeridas pela espécie”, lê-se no comunicado.
Em 2022 os 40 casais estavam distribuídos pelas colónias do Douro Internacional, Serra da Malcata, Tejo Internacional e Herdade da Contenda, no Alentejo.
Atualmente, a colónia do Douro Internacional, a mais isolada, passou de três para oito casais nidificantes desde o ano passado e expandiu-se para o lado espanhol, sendo também monitorizada pelos responsáveis espanhóis.
Na Serra da Malcata o número de casais passou de quatro em 2021 para 14 em 2023 e para 18 este ano. E no Tejo Internacional, a mais antiga colónia (dois casais em 2010), este ano foram monitorizados entre 61 e 64 casais, que produziram 24 a 25 crias voadoras. Destes casais, um quarto optou pelo lado espanhol.
Na Herdade da Contenda, do município de Moura, foram registados este ano 20 a 21 casais, e na Vidigueira, a mais recente colónia, há cinco ninhos confirmados, mas falta ainda apurar mais dados.
O projeto, que vai até dezembro de 2027, prevê a monitorização do abutre-preto em zonas protegidas de Espanha, onde foram registados este ano 153 casais.
Apesar do sucesso, Milene Matos alerta para as ameaças a que os abutres estão sujeitos, a primeira o envenenamento, muitas vezes de forma indireta, por comerem carcaças que foram envenenadas.
Outras ameaças, disse também, prendem-se com a perturbação do habitat (incêndios, caça ilegal, ruído) ou com a colisão e eletrocussão em linhas elétricas.
“Os resultados são promissores, mas, apesar do otimismo, há que encará-los com cautela, pois qualquer ameaça significativa numa das colónias – que se mantêm relativamente pequenas e sujeitas a perturbação – pode comprometer esta tendência positiva e a sustentabilidade das populações”, segundo a VCF, uma entidade sem fins lucrativos criada na Holanda e líder na conservação do abutre na Europa.
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