Acordo UE-Índia abre novas oportunidades para vinhos e azeite do Alentejo
O recente acordo comercial entre a União Europeia e a Índia, concluído esta terça-feira após 18 anos de negociações, poderá abrir uma nova janela de oportunidades para os produtores do Alentejo, em particular nos setores do vinho e do azeite, dois dos principais pilares agroalimentares da região.
Segundo a Comissão Europeia, trata-se do “maior acordo comercial alguma vez celebrado”, criando uma zona de comércio livre para cerca de dois mil milhões de pessoas e eliminando até quatro mil milhões de euros anuais em direitos aduaneiros para os exportadores europeus. O acordo prevê a redução ou eliminação de tarifas em 96,6% do valor das exportações da UE para a Índia, tornando mais acessível um mercado até agora fortemente condicionado por barreiras tarifárias.
No caso do vinho, apesar de a Índia não ser tradicionalmente um grande país consumidor, por razões culturais e religiosas, a dimensão do mercado e o crescimento de nichos urbanos tornam-no estrategicamente relevante. Para os produtores alentejanos, a aposta não passará pelo consumo massificado, mas por segmentos específicos como a restauração de gama média e alta, a hotelaria internacional e os centros urbanos mais cosmopolitas, onde emerge uma classe média e alta aberta a produtos importados e a experiências enogastronómicas diferenciadas. Nestes contextos, os vinhos do Alentejo podem afirmar-se pela qualidade, identidade regional e relação qualidade-preço.
Paralelamente, o acordo foi saudado de forma positiva pelo setor olivícola. A Olivum considerou, em nota enviada à imprensa, que a Índia é “um mercado com potencial” e com “espaço para promover o consumo do azeite”. Em declarações à Lusa, Gonçalo Moreira, gestor de projetos da associação com sede em Beja, sublinhou que um acordo que assegure melhores condições para o setor “é sempre positivo”, destacando que o azeite passará a ter uma taxa de importação zero.
“Principalmente um acordo como este, em que o azeite ficará com taxa zero”, afirmou, lembrando que a Índia é o país mais populoso do mundo e a quarta maior economia global. Apesar de admitir que o consumo de azeite ainda tem pouca expressão naquele país, Gonçalo Moreira considera que isso representa mais um desafio do que um obstáculo, defendendo que produtores e associações podem “trabalhar esse mercado” e “promover o consumo do azeite” português.
A Olivum destacou ainda a existência de um nicho de mercado com dimensão e poder de compra suficiente para absorver produtos de qualidade, defendendo simultaneamente uma estratégia de médio prazo que permita tornar o azeite “o mais democrático e consumido possível”. “É um país com uma dimensão populacional muito interessante, com um número de potenciais consumidores muito relevante”, frisou.
Portugal conta atualmente com cerca de 380 mil hectares de olival, prevendo-se um aumento significativo da produção nos próximos três a cinco anos, fruto da entrada em produção de novos olivais e da reconversão de explorações para sistemas mais modernos. Apesar de um ligeiro decréscimo produtivo este ano, estimado em cerca de 20%, a tendência estrutural do setor continua a ser de crescimento, tornando a abertura de novos mercados particularmente relevante.
O acordo prevê a redução gradual das tarifas sobre o azeite, atualmente fixadas em 45%, até à sua eliminação total num prazo de cinco anos. Em 2024, os principais destinos das exportações portuguesas de azeite foram Espanha, Brasil, Itália, França e Estados Unidos, sendo Portugal o quinto maior exportador mundial deste produto.
No plano macroeconómico, a UE e a Índia transacionam atualmente cerca de 120 mil milhões de euros por ano em bens e serviços, sendo expectável que as exportações europeias para o mercado indiano dupliquem até 2032. O acordo surge também num contexto de reforço das relações económicas entre a segunda e a quarta maiores economias mundiais e recupera uma ambição já assumida durante a presidência portuguesa do Conselho da UE, em 2021, incluindo matérias como a proteção de investimentos e as indicações geográficas, particularmente relevantes para regiões produtoras como o Alentejo.
Embora subsistam desafios culturais, logísticos e de posicionamento, o novo enquadramento comercial poderá incentivar produtores alentejanos de vinho e azeite a explorar, de forma gradual e estratégica, um mercado de grande escala onde os produtos europeus de qualidade começam a ganhar espaço.
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