O Superparafuso

(e outras aventuras no admirável mundo da desinformação autárquica)

Bem sei que sou um ingénuo, por vezes parvo, mas continuo a ter cá para mim que o Estado detém (ou deveria deter) um papel importante nesta matéria: na persecução de uma informação plural, minimamente isenta, séria, esclarecedora, útil... sem fins propagandísticos ou eleitoralistas. Não estou a falar de jornalismo, longe de mim tamanha heresia, nem sequer do Poder Central, esse monstro de sete cabeças que se multiplicam ao expoente cada vez que uma delas é decepada. Chamo para qui apenas e tão só as instituições de proximidade, muito em concreto as autarquias, e a maneira como comunicam com os seus urbanitas. Nós, em pelota.

Ora bem: assim que me ocorra não há Câmara pingada que não tenha o seu gabinete de informação e de comunicação. Que não dissemine os seus afazeres e arrelias através de boletins, notas informativas, cartas noticiosas, saraus radiofónicos, comunicados de imprensa... Concordo de pés juntos, já o disse, com tudo isto e com tudo o mais que a fértil imaginação de um autarca propagandista (todos eles) possa urdir para comunicar connosco. É assunto importante, este, o de manter a populaça informada. De tal forma “importante” que nenhum sô-presidente se escusa, ele próprio, a ter este setor sob domínio particular, estimadinho, por debaixo da almofada, ali bem ao alcance da sua corrigível-incorrigível-corretora esferográfica. Azul.

Mas será que a informação que nos é dada através das onerosas máquinas de propaganda das autarquias, das empresas municipais ou dos organismos intermunicipais é fiável? Não me parece! Nesta matéria, com pontuais exceções, o mau serviço público é a prática dominante. Recorrendo de forma sistémica ao adorno dos factos (há quem lhe chame manipulação), à sua descontextualização, sem filtros nem pudor, estas instituições transformaram-se em apuradas fábricas de produção massiva de fake news. É o que elas deviam levar: pimenta na língua.

Não me vou estafar, nem vos quero moer com um chorrilho asfixiante de “casos de estudo” sobre o vigente processo desinformativo autárquico. Bem o podia fazer, tal a fartura. Bem podia aludir ao recentemente “noticiado” e inacreditável, porque inqualificável, palimpsesto de Moura. Em que o Edifício dos Quartéis, demolidas as originais placas alusivas, tornou a ser inaugurado como se fosse obra de um Houdini renascido. Bem podia aludir ao berlusconismo de entoação campaniça, no sentido paupérrimo do termo, que graça em Castro Verde. Onde se autocompraz no seu “império” mediático privativo, com tamanho deleite que nem nunca Narciso ousou, o senhor-autarca-nossossenhor. Mas não. Fico-me por aqui. Por Baleizão. Neste meio-caminho escalavrado entre Beja e Serpa.

Costumo ser jornalista: é o raio de uma teimosia que me deu desde moço-pequeno. Mas pronto, é nessa condição que sou brindado, em diária abundância, com preciosos comunicados de imprensa como este com que há dias me mimoseou a Câmara Municipal de Serpa. (Um parêntesis só para dizer como verdadeiramente me encanta receber emails vindos dali. O remetente assina “SICI”. E fico sempre a imaginar: será mesmo ela, a habsburga incompreendida? Não é, pois claro!). Desta feita, informou-me SICI que a 9 de abril o ministro Eduardo Cabrita inaugurou o novo posto da GNR de Serpa. Uma boa notícia, sem sombras para qualquer dúvida.

Personificando, o que para aqui faz todo o sentido, o autarca cedeu “gratuitamente” o edifício de uma escola primária e o ministro meteu lá quase um milhão de euros para pagar as obras. Tudo porreiro, pá! E o que se passou na inauguração, segundo SICI? Citemos a hilariante nota de imprensa que dali brotou: “Na cerimónia participaram o Presidente do Município”. Uma gralha? Dislexia quanto às concordâncias verbais? Falta de memória? Incompetência? Um excerto cirurgicamente por mim retirado do contexto para justificar uma tese, esta, indefensável? Nada disso: pura manipulação informativa. Da pior espécie. Ui-ui.

O texto, tal a sagaz vontade de branquear o momento político, sem fazer uma única alusão às palavras do governante, corre parágrafos fora exaltando as idiossincrasias do autarca. Senti vergonha, confesso. Fez-me lembrar os tristemente célebres proto-photoshops às galerias do Kremlin. Raspar da fotografia a figura, nem por isso fotogénica, de Cabrita é de um despudor e de uma falta-de-chá que não lembram ao Menino Jesus. “Bom, mas isso é lá com eles – é a política, estúpido”, diria qualquer desavisado bom-coração.

Compreendo. A descortesia interinstitucional e a incivilidade perante o convidado que se recebe em casa é, de facto, “lá com eles”. Diz o povo que os atos ficam com quem os pratica, que amor com amor se paga, que o falso amigo é o pior dos inimigos e tará-tá-tá-tará-tá-tá. Tudo na boa, por aí. A questão é que este não é um simples episódio de má-criação, antes o fosse. É um aparente embuste. E, como tal, intolerável. As autarquias têm o dever (a obrigação) de comunicar com verdade e com ética. Até porque, boa parte das vezes, os seus munícipes apenas têm acesso à informação que por elas é veiculada. Não dispondo de contraditório, tomam como boa e rigorosa a conversa que lhes é servida. E, na verdade, neste como em tantos-tantos outros casos, isso não acontece. Pelo contrário.

Distorcer os factos, seja por acréscimo ficcional (Moura), seja por omissão premeditada (Serpa), é uma prática que foi sobejamente depurada pela outra-senhora e que, então como hoje, tem um e apenas um objetivo: manter as pessoas na ignorância, presas pelo anzol.

Mas o que é deveras grave é que as autarquias também são (deveriam ser) agências informativas fidedignas. Principalmente a nível local, onde os meios de comunicação não têm recursos humanos para acompanhar a agenda. Ao abastecerem os media com informes parciais, com pseudoacontecimentos, notícias rasuradas e sem filtros, as autarquias instituem-se como agendes da desinformação. E, lá está: uma inverdade repetida até à exaustão acaba por ser elevada à condição de “verdade”. Por vezes, é melhor beber do cano do que ir à fonte, por muito fresco que aparente ser o que de lá jorra.

É complicado, o presente tempo informativo em que todos e cada um de nós nos arvoramos em jornalistas (também gostamos de nos substituir com propriedade inata aos juízes, os de direito e os da bola, ou aos professores). Nada de muito especial, o ser humano costuma ter-se a si mesmo em boa consideração. Mas uma coisa é uma pobre-alma estiraçada no seu canapé da sala-de-estar a mandar bitaites no FaceBook, cavado na sua trincheira de certezas absolutas, guerrilheiro intransigente na batalha contra a opinião dos outros, justiceiro empedernido e fiel combatente pela “razão” (a sua), arguto estratego das teorias da conspiração. Outra, um “nadinha” diferente, é uma autarquia, como a de Beja, fazer da pós-verdade o seu estandarte (ou estendal).

Já lá irei. Até porque a autarquia bejense, pela destoante batuta do seu maestro, se revelou um verdadeiro des-concerto informativo. E não há diapasão que lhe valha. Ora bem, um desabafo profissional que vai ser útil para o que um poucachinho mais baixo há de vir: há dois anos pude fazer, com bolsa da Fundação Gulbenkian, uma ampla investigação jornalística sobre a cultura dos olivais em Alqueva, trabalho que foi publicado em três edições consecutivas da revista Sábado. Não sei precisar se falaram para a reportagem sete ou oito dezenas de pessoas. Sei que falaram todas aquelas que achei por conveniente contactar. Sem exceção? Não, claro! Apenas uma se furtou à conversa, nunca devolvendo os sucessivos contactos ao longo de um ano - o autarca de Beja. Que, nem por acaso, governa o concelho com maior pressão e más-práticas de culturas intensivas dentro dos blocos de rega. Feitios? Não, defeitos meus! Não frequento as redes sociais.

Eis então que, com grande alegria no coração, recebo ao fim de dois anos, no mesmíssimo 9 de abril do Cabrita esquecido, noticias da autarquia. A prova de vida (devida) veio sob o formato de nota de imprensa, destinada ao meu “conhecimento” e para “eventual divulgação”. Afinal, já não estavam “zangados” comigo (se é que algum dia para isso tivesse havido razão) ou, pelo menos, tinham recuperado o meu contacto de correio eletrónico (que se calhar sempre tiveram). A informação que lá vinha era boa, anunciava-se uma, mais uma, candidatura de âmbito sociocultural para os habitantes do Bairro das Pedreiras. Tudo nos conformes, não tivesse o documento vindo assinado pelo novo adjunto político do presidente. Fiquei, literalmente, e passe a ironia, com o nó na garganta. Lá estou eu a embirrar?

Talvez sim! Porventura, nem por isso. É que isto da comunicação institucional e das relações com a imprensa tem que se lhe diga no que respeita à credibilidade e à transparência. Tem a ver com a tal coisa das aparências da mulher de César. É substância melindrosa que requer trato profissional. Por isso mesmo, tanto dinheiro dos nossos impostos é investido em gabinetes de comunicação e de imprensa. Para adequar a mensagem ao meio e, acima de tudo, para, dentro da razoabilidade possível, obstar às zelosas tentações propagandísticas dos agentes, ainda que eleitos. Colocar o ónus comunicacional nas mãos de políticos engajados, yes-men de circunstância, e circunscrever o fluxo informativo de uma autarquia capital de distrito à máquina de café da antecâmara presidencial é revelador de muitas coisas. Más, todas elas.

Fico estarrecido quando ouço certos autarcas a dizer de si para si mesmo, de boca bem cheia de migalhas de fair play, que o jornalismo é um pilar fundamental dos regimes democráticos. Concordo com a proposição, como não? Embora o jornalismo democrático que estes autarcas-eu-eu-eu apregoam se esgote no simples ato noticioso e, já agora, acrítico. Acho que vale a pena falar nisto, ainda mais por estes dias em que se celebra o fim da velha ditadura. Mas lamento muito dizer que “esse tal” jornalismo, assim sem mais, de pouco ou nada serve os interesses das democracias esclarecidas. Sempre existiram jornais e jornalistas durante o Estado Novo que, aliás, até foi precursor da rádio e da televisão em Portugal. E não me parece que tal tenha feito de Salazar um adepto do jogo democrático.

O que faz do jornalismo a alma da democracia é outra coisa. Complementar ao essencial exercício noticioso, mas outra coisa. É aquilo que muitos governantes, como o de Beja até prova em contrário, parece ainda não terem encaixado: a possibilidade de o jornalista vigiar e escrutinar as suas ações. Livremente. Sem impedimentos. Com recurso ao contraditório, como é evidente, mas com livre acesso às fontes oficiais de toda e qualquer ordem. Aí sim, funciona a democracia e é ativado o chamado “quarto poder”. Que mais não é do que o poder da averiguação, o poder do exame, o poder da observação, o poder da crítica... enfim, o poder da liberdade de imprensa que é o garante da maior de todas as liberdades, a de expressão. Quando as instituições se escusam a este exercício de transparência, a esta mediação dos seus atos, aí sim, o jornalismo deixa de ser um dos quatro garantes da democracia, para se resignar à condição de “quinta coluna”. A coluna onde apenas cabem as verdades inabaláveis, os exercícios de vaidade e de autoritarismo, a voz dos donos disto tudo.

Bem sei que há gente que acha muito salutar os seus iluminados autarcas, partilharem picuinhices nas redes sociais. Também não tenho nada contra. É coisa de “amigos”, afinal. O que me entristece e nauseia é quando esses ajuntamentos virtuais em torno do líder absoluto se transformam no único meio de aceder a informações da vida corrente de uma instituição pública, eleita, como desconfio que seja a autarquia de Beja. Concentrar na página pessoal (e por isso privada) do presidente-rei a divulgação exclusiva de informações e acontecimentos que são de natureza coletiva é de uma regressão civilizacional a toda a prova. Parece coisa dos livros de quadradinhos.

Mantendo a publicitação dos seus feitos heroicos na esfera dos indefetíveis “amigos”, clube privativo onde não entra crítica nem contraditório e muito menos reprovação, o autarca reina na sua segura e leal Pequenópolis. Terra noutros tempos devastada pela anarquia informativa, mas que hoje anda de trela bem apertada ao garganhoto. E, em toda e qualquer urgência, lá está ele, redentor, debaixo de capa esvoaçante ao estilo Marvel, sob aplauso e ovação do seu assanhado povinho, a tratar das urgências inadiáveis. Seja roscando uma lâmpada de tecnologia moderna num velho candeeiro de rua, aplicando uma abraçadeira numa árvore que teima a entortar no canteiro, anunciando o número de dobradiças, de anilhas e de buchas que hão de valer às milhentas obras em curso. Tcharam-tcharam

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